terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

POLICIAIS NÃO GOSTAM DE NÓS






Eu não gosto de policiais assim como eles não gostam de mim. Eu sou sujo e depressivo. Ando numa contramão invisível, de valores deturpados, vícios anormais e depravações imorais. A lei é a lei da pedra, do asfalto fervendo as costas do embriagado. A corja que me segue é nauseabunda e vil. Somos odiados pela nossa estirpe. Não devo segredos. Tenho estudo, falo três idiomas. Sou de família nobre, acolhedora, amável. Terminei a faculdade e tenho uma pós-graduação pela metade. Pela metade, de nada vale. Não vale metade de um baseado, metade de uma garrafa, metade de um coito. Pela metade eu não vivo. Gosto de tudo cheio, completo... No limite.
Eu botava fogo no puteiro, nasci malandro. Que prazer! Prazer em chocar. Vou dar uns exemplos da malevolência.Eu e mais três numa noite de sábado, alias, madrugada. Rua limpinha de gente, muita vodka com energético, quatro fumantes ferrenhos e dois zippos baleados. Mendigos dormindo no ponto, ai eu penso “Que se foda”, “Fogo na cambada”. Mas me disseram que já tinham feito a proeza em outra paragem. Eu não ligo, eu ainda não fiz. Para o carro, “Fogo”, “Fogo” e “Fogo”. Aquela luz vermelha, a fumaça preta, os gritos. As testemunhas. Não importa. Eu queria ter feito isso. A cena que imaginei tava assim, bem caótica. Porra de corja puritana estava comigo, nem ameaçou encostar o carro. Será que teria que trocar de brother?





Em uma noite de quarta-feira, decorei especialmente a rua da praça. Cachorro no espeto do portão. Aqui tem muito cachorro. Mas tive que ser rápido. Ganido por ganido, espeto por espeto. Sujei-me inteiro. Mas estava de vermelho, menos mal.Foi lindo. Coisa violenta. Saiu no jornal do bairro.
Final de tarde, uma terça-feira. O ponto era o do pedágio. Pedágio de drogas com uns putos camaradas. Tava lá... Dei uma de Zé e dava facada de estilete na bunda de uns nóias gordinhos. Pô, tava atrasando o lado dos guerreiros. Nem enfiei o estilete. Só dava umas riscadas. Deixei a galera vender sossegada. Eu tava no limite esse dia. Fui no forró e detonei. Só nortista. Que se fodam. Lá ninguém sabia meu nome. Um saco. Nunca sabem.
Um domingão depois eu fui pichar. Coisa de pobretão mesmo, mas eu to acima, bem acima. O muro de casa não tinha um risco. Pichei. “Brrrrruxo BBBBarão!!!@@ By: Carcereiro Infernal”. Acordei meu pai. Falei para ele: “Foi tal fulano! Zuou nossa frente”. Surra no moleque. Neguinho safado.
Fui cuidar da tia do vizinho. Mamãe insistiu e Fui. Velha decrépita, um nojo. Pelos repulsivos na cara. Mas a coxa roliça, o peitão. Até pensei, fiz meus cálculos. Ela nunca ia falar. Gozei nas costas dela, no lado esquerdo da cadeira de rodas. Não limpei. Ela nem me viu. Dei muita risada. To jovem, tenho que me divertir.
Até aqui, isso não te acrescenta em nada. Não sou escritor. Meu... Eu não to aqui pra ser o foda da literatura. Só pedi papel para o policial porque tenho que ser o foda logo mais. Porque me pegaram numa injustiça. Era só um pacotinho de erva. Vai todo mundo ler essa merda e ver que eu não sou esse burguês branquelo drogado de meia pataca. Sou muito mais. Policiais não gostam de gente como eu. Eles sabem que quando eu tiver o cartucho certo, vou estar lá no auge, dirigindo a cidade. Meu pai sabe como funciona. Esse papel vai direto para o jornal da cidade. Sou formado em economia, sei como funcionam essas paragens. Eu vou indicar uns amigos. Rafa Bola, Julio Candura, Davi Espólio. Eu queria falar pessoalmente.
Vou parar. O nó ta firme, definitivamente cadarço de All Star é o melhor. Quando o peso do meu corpo quebrar meu pescoço, minha língua vai inchar pra fora da boca e vou mijar e cagar por toda a cela. Eles vão dizer “Esse cara era foda”. Sujeira total. Vou deixar o dedo do meio esticado. Com estilo. Eles não gostam de gente como eu.Quem ler isso sabe das coisas. Se gostar, é que ocorreu identificação. E ai você entra no meu mundo. E eu já disse, eles não gostam de nós. Adeus.

ESSE FILHO DA PUTA QUE LARGOU ESSA MERDA DE TEXTO E ACABOU DE SUJAR A PORRA DA CELA AQUI DO DISTRITO, FALOU, FALOU, FALOU E ESQUECEU DE ASSINAR A PORRA DO PRÓPRIO NOME. CUSÃO, BURRO, SEM UM DOCUMENTO NO BOLSO. VAI PRA VALA DOS INDIGENTES.
ABRAÇOS... CABO SANGRENTO!

Sérgio Ferrari