O ladrão sagaz, com seu apertado conjunto preto de moletom, usando uma mascara que lhe cobre somente os olhos, corre desesperadamente fugindo de um grupo de policiais. Ele segura em uma das mãos um anel, com um diamante do tamanho de uma cereja. Corre já há alguns minutos e se vê perdido após tantas curvas. Acostumado com os becos escuros e as zonas de baixo meretrício, mal pode se esconder nas ruas elegantemente iluminadas do bairro nobre onde acabara de adentrar.
Ao dobrar a primeira esquina sente que esgotaram as chances de escapar de seus perseguidores. Mas, decidido, não irá ser pego com nenhuma prova do roubo que cometeu. Arremessa o diamante por entre as lanças da grade de um enorme casarão. Acompanhando com o olhar o brilhante, até este parar na beira de uma janela, no quarto do andar superior. Dá mais alguns passos e pula para dentro do gomo de uma pequena árvore, podada em formato de bola. No quarto, onde caiu o anel de diamante, um casal de crianças dorme abraçado em uma apertada cama de solteiro, no hack em frente a eles, um aparelho de som propaga suavemente o Barbeiro de Sevilha, uma ópera de Rossini:
“Fígaro, son qua!Figaro, son qua!Figaro qua, figaro láFigaro su, figaro giù...
Um grupo de policiais passa pelo bandido apitando e jogando suas lanternas em meio as sombras e logo desaparecem no final da rua. O ladrão desce tropeçando e apoiando nas grandes lanças à sua frente. Escalando-as, ele salta sobre um jardim forrado de arbustos que contornam a residência. Na penumbra, se esgueira pela parede até encontrar a janela onde uma pequena fortuna o aguarda. As janelas térreas têm grades, mas as de cima estão entreabertas. Ágil, ele coloca um pé se apoiando na grade e salta caindo de barriga na beira da janela. Gira seu corpo e senta-se com as pernas para dentro do quarto. Neste movimento, arrasta o anel, que acaba por cair no luxuoso carpete de fibras trançadas. O ladrão fixa o olhar em direção a cama à sua frente, esperando sua pupilas relaxarem e se acostumarem àquela visão escura. Olhou para o chão a procura do brilho do diamante, mas o contraste do colorido do carpete e o breu de uma noite sem luar camuflaram qualquer traço do objeto. O ladrão lentamente desliza pela borda até seus pés tocarem o chão.
“Ah, bravo figaro!Bravo, bravísimo!Fortunatíssimo per veritàLa ran la, la ran la, la ran la, la”
Ao pisar firme no carpete uma alegre musica de teclado começa a tocar. Assustado, ele joga seu corpo novamente contra o parapeito da janela, formando uma alavanca que o joga de volta ao jardim. Coberto de folhas e com suas costas doloridas ele se levanta.
“Ah, que magnífico, tudo que eu precisava. Um diabo de casa musical”.
Com pensamentos aborrecidos ele espera alguns minutos e observa os movimentos dentro da casa. Ninguém acorda, o silêncio só é quebrado pela ópera, e o ladrão volta a subir. Sentado na janela ele observa o casal dormindo sobre a cama. Deduz que o menino não deve passar dos oito anos e a menina já chegou aos seus doze. Seus olhos baixam e distinguem os contornos de um belo tapete musical preso à costura do carpete. Dá um salto suficiente para desviar do brinquedo e cai como uma pluma, agachado ao pé da cama. Com receio de que algo saia errado, ele vai ao lado das crianças para confirmar se o sono é verdadeiro ou apenas disfarçado.
“Pequenas criaturas não vão foder com o titio Silva, não é mesmo?” Sussurrou o paupérrimo ladrão, revelando sua secreta identidade.
O cd que toca a ópera trava em uma parte.
“A te fortuna, a te fortunaa te fortunanananana...”
Confuso, o ladrão Silva se injuria com medo de confusão e alarde. A mudança de tom pode acordar alguém, pensando nisso Silva, o esperto, tateia o aparelho tentando desligá-lo. Para seu infortúnio, sua mão escorrega pelo comando de volume, aumentando ao máximo o som. A vibração desencalha o som travado.
“La ran la lera, laran la laLargo al factotum della città, largoLa ran la, la ran la, la ran la, la
Ah, bravo fígaro!Bravo, bravíssimo, bravoLa ran la, la ran la, la ran la, la”
A garota desperta com um grito agudo, muito alto. O ladrão, ao mesmo tempo, dá um salto ornamental, digno de nota, passando como uma flecha direto pela janela.
Atordoado e com dores pelo corpo, ainda deitado sobre arbustos ele observa as luzes do quarto e as sombras aumentando seu tamanho.
-“Maldito azar, óh meu lombar. Que posso fazer se lá tenho que voltar?”-
No quarto, a garota sobre o colchão, segura um lençol azul com bordados brancos de seda, um céu repleto de nuvens. O garoto continua a dormir e ronca profunda e inocentemente enquanto a cama balança de um lado para o outro. O pai entra pela porta com um roupão vinho de veludo colocado do avesso. Um homem baixo e de ombros largos. Com uma voz firme e rouca fala para a menina se calar, pois o barulho acordaria toda a vizinhança e eles não podem correr esse risco. Abaixa o volume do som, abre a entrada de cds e limpa o interior. Recoloca na mesma musica e a ópera recomeça. Fala que vai voltar a dormir e diz para a filha não se preocupar, pois estes aparelhos caros sempre dão algum problema.
Antes de encostar a porta ele observa a janela totalmente escancarada, mas nada faz a respeito. Desconfiado ele volta ao seu quarto. Com as luzes novamente apagadas, o ladrão retorna a ação. Sobe desacreditado, mais uma vez pelo mesmo caminho. Entra sem cerimônias pelo quarto e pensa seriamente em matar todos se algo der errado. Agacha-se e começa a passar seus dedos por entre o chão. Após alguns minutos e com os joelhos doloridos, além de todo o seu corpo, ele se levanta com algo gelado encostando-se ao seu pescoço. O pai das crianças rende o ladrão com uma enorme faca de cozinha.
-Vai fazer mal aos anjinhos que dormem tranqüilos? - Uma voz de hálito podre e grande intensidade se profere com muita calma.
-Eu guardei algo meu nesse quarto -Segurando a ponta da faca com os dedos -E minha vida depende disso.
- Vai, pega o que tu quer e vá de retro demônio.
O ladrão, surpreso com o flagrante e com a decisão do dono do casarão, arma uma história triste, de vida difícil e aluguéis atrasados, mãe doente na fila do hospital e quatro filhos para criar sozinho. O pai abaixa sua faca, ainda presa pelos dedos de Silva, e complacente com a dramática história, oferta as relíquias da casa para o ladrão. Alegando ter dinheiro suficiente nos bancos para repor tudo o que for levado. Desacreditando na ingenuidade e bondade daquele senhor o ladrão fala de uma bela moeda de prata que havia visto no piso daquele quarto e imediatamente se abaixa continuando a busca pelo anel de diamante. No entanto, ao se ajoelhar seus olhos se erguem de súbito.
“Figaro qua,
figaro lá
Figaro su,
figaro giù...”
O garoto em pé, com os olhos ainda fechados, balbuciando coisas sem sentido, leva à boca uma pedra brilhante incrustada em um anel, tão logo engolindo-a e lambendo cinicamente a ponta dos dedos.
Com os olhos arregalados e uma forte falta de ar atingindo seus pulmões, o ladrão observa pasmo o garoto voltar a sua cama e deitar-se novamente. Um sonoro “NÃÃÃÃÃOOOOOO” corta a madrugada. Uma loira tingida, com as raízes do cabelo pretas, chega do quarto principal para averiguar o motivo de tanto barulho, ela esta em um lingerie duas vezes menor que a quantidade de gordura em suas curvas permite. O ladrão agarra o garoto e o joga por cima dos ombros, -“Não tentem nada, o anel é só meu e vou recupera-lo”- Os pais confusos com a história, falam que o garoto nada tem a ver com os problemas financeiros do ladrão. A garota acorda e da um grito ao olhar para o rosto mascarado do bandido, ela abraça seus pais dizendo para a protegerem do Zorro. Fárois enchem o quarto de luz e o ronco de um potente motor invade com ecos toda a casa. Os pais falam ao mesmo tempo -“Meu Deus, eles chegaram!”- .
– Quem chegou? - Pergunta Silva, ainda agarrado ao menino.
– Os donos da casa. - A gorda, falsa loira, agarra o rosto com suas mãos roliças. - Óh, e agora? Somos sem teto, moradores de rua que não tem onde cair mortos. A gente olhava essa casa há um mês e nunca aparecia ninguém, ué.
Não havendo sinal de ocupação, eles decidiram ter uma noite de luxo, que já durava três dias. O ladrão Silva, o sagaz, sai em disparada pela porta do quarto e desce as escadarias chacoalhando o menino em seu ombro. Na sala, sem saber o que fazer, ele observa o trinco da porta sendo aberto. Com astúcia, ele entra por baixo das enormes almofadas de um valioso sofá branco de couro.
O casal entra na casa chorando e discutindo, um acusa o outro de descuido. São os verdadeiros donos do casarão, que passaram um mês de férias esquiando em Aspen, na Argentina. A tragédia ocorreu neste último dia de estadia, no hotel da colônia onde estavam. O filho deles de oito anos foi seqüestrado. Voltaram imediatamente para o Brasil, seguindo as instruções de um bilhete deixado no bolso da mãe do garoto.
“Se vuelven a tú casa y esperan mi ligarse. Voy a robar su dinero.”
Os sem teto se amontoam embaixo da cama do quarto principal. O ladrão reza para que o garoto não acorde e nem tenha outra crise de sonambulismo. O casal, debulhado em lágrimas, senta ao lado do telefone. No primeiro toque, Sr. Aglioros atende.
-Alô?
-Cabron, como estás?
-Não machuquem nosso filho.
-déjeme hablar com a esposa.
A Sra. Aglioros segura trêmula o telefone.
-Meu filhinho, devolva meu filhinho.
O argentino tem um palavreado chulo, forrado de palavrões. Seu portunhol enrolado da impressão de que para ele, aquilo esta sendo uma grande diversão.
-Le gusta que le dan candela por el culo?
-Eu não entendo.
-Dinero. Deseo el dinero. Dos millones. Marimacha!
-Meu marido cuida do dinheiro, mas dois milhões? Não teremos esta quantia agora.
Sr. Aglioros pega o telefone de volta.
-Para quando quer o dinheiro e onde vai deixar nosso menino?
-Esta noche. En su casa. Estaré allí con el niño y usted da mi dinero. Pelotudo, no llame al policía.
A ligação cai. O casal Aglioros fica desconsolado. Não podem obter tal quantia a tempo.
Entre suas lamentações, um som de ópera desce pelas escadas e se espalha suave pelo ambiente.
“Che furia! La ran la, la ran la, la ran la, la”
A Sra. Aglioros cutuca o marido e aponta para o quarto de cima. Enroscam o braço um no outro e sobem cautelosos para averiguar a origem do som. Na sala, o ladrão Silva, o corajoso, sai do sofá e acorda o garoto.
- Puta que pariu, como pode dormir desse jeito?
Os sem teto saem correndo escada acima para se amontoarem no sótão, segundos antes do casal terminar de galgar os degraus. O ladrão Silva, o bravo, carrega o garoto até o banheiro. Enfia o dedo na garganta do menino, mas ele não vomita. O casal Aglioros observa assustado a cama de seu filho desarrumada, o rádio ligado e a janela aberta. Tremem de medo. Na sala, o ladrão Silva, o insistente, volta a enfiar o dedo na garganta do menino, mas ele não vomita. Furioso, ele vai para a cozinha, abre a geladeira e abre uma garrafa de leite. Aperta o pescoço do menino e o enche de leite cru. Enfia o dedo em sua garganta, mas ele não vomita. O ladrão Silva, o desconsolado, olha atônito para o rosto do menino e este permanece estático encarando-o com olhar confuso. O menino boceja. Esta com sono.
No sótão, a filha dos sem teto começa a se manifestar com espirros estrondosos logo após aspirar uma nuvem de poeira que lhe subiu ao nariz. O pai sem teto, com sua voz gutural, esquece por um segundo onde esta e dá um berro: -“cala boca estrupício”-. Percebendo a merda que fez, fica assustado. O casal ouve os murmúrios vindos de cima. Tem mais alguém na casa. Dão passos cautelosamente, os corajosos Sr. e Sra. Aglioros. Os sem teto passam por uma janela pequena de ventilação, direto para o telhado da casa e se amontoam por lá. Na sala, o ladrão Silva, o louco, chacoalha o menino perguntando repetidamente qual era o motivo dele não vomitar. Vão novamente para a cozinha. Dessa vez ele enche uma colher de óleo e obriga o menino a toma-la. Enfia o dedo em sua garganta, mas ele não vomita. Vão novamente para o banheiro e o ladrão Silva, o teimoso, enfia uma escova de dente na garganta do menino, mas ele não vomita.
O casal Aglioros desce apressado as escadas. O ladrão segura o menino e se joga para dentro do sofá. O casal decide ignorar o aviso argentino e liga para a policia. Ao explicar a situação para o detetive Péricles, este resolve preparar uma emboscada. Prenderá o seqüestrador no momento em que ele chegar a casa. Detetive Péricles, um anão de sapatos com solado duplo e uma longa capa amarela (ridícula!) diz que é possível que os barulhos na casa sejam feitos por possíveis cúmplices, - “mas a ajuda está a caminho” -, afirmou ele.
O seqüestrador argentino chega em frente a casa ao lado de um menino encapuzado e toca a campainha. Detetive Péricles o observa, não acreditando que ele chegou a pé. A porta se abre.
-Buenas noches. Deseo el dinero. Aquí está el muchacho
O detetive Péricles surge por trás, na rua, com voz de prisão a pleno pulmão.
-Puta la madre!
O argentino sai correndo para dentro do casarão, subindo escadaria acima. O casal Aglioros se ajoelha e abraça o filho seqüestrado, sem ao menos ter a consideração de lhe tirar o capuz. O detetive Péricles pede reforço policial pelo rádio e sobe como um boneco doido no encalço do seqüestrador. No telhado, o pai sem teto chega a uma triste conclusão, -“O destino é mesmo injusto, estamos em uma bela casa, porém, ainda sem teto.”- Indignados, eles resolvem descer. Saindo do sótão os sem teto se amontoam com o argentino seqüestrador que corria as cegas e em velocidade, com o impacto todos rolam escada abaixo, alguns em câmera lenta.
O argentino embaixo dos glúteos volumosos da mulher sem teto se expressa: -Ay, agora me cago en la tapa del organo y me revuelvo encima de la mierda.
O detetive Péricles dispara dois tiros para o alto.
– Esta todo mundo em cana. Peguei a quadrilha inteira.
Na sala, dentro do sofá, o ladrão e o menino se assustam com os tiros. O menino tenta sair, mas o ladrão o puxa para dentro. Mais policiais entram na casa. Péricles desce após alguns minutos para a sala, dando risada e puxando o argentino algemado. O detetive comenta com os outros policiais sobre o azar que os sem teto tiveram naquela noite. Eles haviam explicado o motivo de estarem ali e, seja qual for o motivo que eles tinham dito, o detetive Péricles acreditou e os liberou, não sem antes anotar o telefone de contato da família (No caso, sem telefone algum). O casal Aglioros continua abraçando o filho, que continua encapuzado. A mulher sem teto pergunta com um semblante preocupado ao policial:
-Mas e o menino?
Péricles aponta para o casal que abraça o filho e diz que tudo já esta resolvido. A mulher sem teto fala em tom quase desesperado:
-O meu menino! Não o dela.
Todos na sala fazem cara de interrogação. O ladrão Silva, o enrascado, dentro do sofá começa a suar frio, mas se acalma diante da impossibilidade de o acharem em um esconderijo tão inusitado. Todos permanecem pensativos por alguns instantes. O argentino permanece ao lado do sofá com ares de revolta e seu nariz funga sentindo um aroma azedo. -“Nuestra señora, que amargo!”- Exclama o seqüestrador. E o cheiro começa a se alastrar pela sala. Todos olham para o sofá, um liquido viscoso começa a escorrer das almofadas até o chão, onde cai com um anel enorme, vermelho brilhante, muito bonito. Todos de boca aberta, sem reação enquanto ouvem uma voz abafada gritar desconsolada:
Ao dobrar a primeira esquina sente que esgotaram as chances de escapar de seus perseguidores. Mas, decidido, não irá ser pego com nenhuma prova do roubo que cometeu. Arremessa o diamante por entre as lanças da grade de um enorme casarão. Acompanhando com o olhar o brilhante, até este parar na beira de uma janela, no quarto do andar superior. Dá mais alguns passos e pula para dentro do gomo de uma pequena árvore, podada em formato de bola. No quarto, onde caiu o anel de diamante, um casal de crianças dorme abraçado em uma apertada cama de solteiro, no hack em frente a eles, um aparelho de som propaga suavemente o Barbeiro de Sevilha, uma ópera de Rossini:
“Fígaro, son qua!Figaro, son qua!Figaro qua, figaro láFigaro su, figaro giù...
Um grupo de policiais passa pelo bandido apitando e jogando suas lanternas em meio as sombras e logo desaparecem no final da rua. O ladrão desce tropeçando e apoiando nas grandes lanças à sua frente. Escalando-as, ele salta sobre um jardim forrado de arbustos que contornam a residência. Na penumbra, se esgueira pela parede até encontrar a janela onde uma pequena fortuna o aguarda. As janelas térreas têm grades, mas as de cima estão entreabertas. Ágil, ele coloca um pé se apoiando na grade e salta caindo de barriga na beira da janela. Gira seu corpo e senta-se com as pernas para dentro do quarto. Neste movimento, arrasta o anel, que acaba por cair no luxuoso carpete de fibras trançadas. O ladrão fixa o olhar em direção a cama à sua frente, esperando sua pupilas relaxarem e se acostumarem àquela visão escura. Olhou para o chão a procura do brilho do diamante, mas o contraste do colorido do carpete e o breu de uma noite sem luar camuflaram qualquer traço do objeto. O ladrão lentamente desliza pela borda até seus pés tocarem o chão.
“Ah, bravo figaro!Bravo, bravísimo!Fortunatíssimo per veritàLa ran la, la ran la, la ran la, la”
Ao pisar firme no carpete uma alegre musica de teclado começa a tocar. Assustado, ele joga seu corpo novamente contra o parapeito da janela, formando uma alavanca que o joga de volta ao jardim. Coberto de folhas e com suas costas doloridas ele se levanta.
“Ah, que magnífico, tudo que eu precisava. Um diabo de casa musical”.
Com pensamentos aborrecidos ele espera alguns minutos e observa os movimentos dentro da casa. Ninguém acorda, o silêncio só é quebrado pela ópera, e o ladrão volta a subir. Sentado na janela ele observa o casal dormindo sobre a cama. Deduz que o menino não deve passar dos oito anos e a menina já chegou aos seus doze. Seus olhos baixam e distinguem os contornos de um belo tapete musical preso à costura do carpete. Dá um salto suficiente para desviar do brinquedo e cai como uma pluma, agachado ao pé da cama. Com receio de que algo saia errado, ele vai ao lado das crianças para confirmar se o sono é verdadeiro ou apenas disfarçado.
“Pequenas criaturas não vão foder com o titio Silva, não é mesmo?” Sussurrou o paupérrimo ladrão, revelando sua secreta identidade.
O cd que toca a ópera trava em uma parte.
“A te fortuna, a te fortunaa te fortunanananana...”
Confuso, o ladrão Silva se injuria com medo de confusão e alarde. A mudança de tom pode acordar alguém, pensando nisso Silva, o esperto, tateia o aparelho tentando desligá-lo. Para seu infortúnio, sua mão escorrega pelo comando de volume, aumentando ao máximo o som. A vibração desencalha o som travado.
“La ran la lera, laran la laLargo al factotum della città, largoLa ran la, la ran la, la ran la, la
Ah, bravo fígaro!Bravo, bravíssimo, bravoLa ran la, la ran la, la ran la, la”
A garota desperta com um grito agudo, muito alto. O ladrão, ao mesmo tempo, dá um salto ornamental, digno de nota, passando como uma flecha direto pela janela.
Atordoado e com dores pelo corpo, ainda deitado sobre arbustos ele observa as luzes do quarto e as sombras aumentando seu tamanho.
-“Maldito azar, óh meu lombar. Que posso fazer se lá tenho que voltar?”-
No quarto, a garota sobre o colchão, segura um lençol azul com bordados brancos de seda, um céu repleto de nuvens. O garoto continua a dormir e ronca profunda e inocentemente enquanto a cama balança de um lado para o outro. O pai entra pela porta com um roupão vinho de veludo colocado do avesso. Um homem baixo e de ombros largos. Com uma voz firme e rouca fala para a menina se calar, pois o barulho acordaria toda a vizinhança e eles não podem correr esse risco. Abaixa o volume do som, abre a entrada de cds e limpa o interior. Recoloca na mesma musica e a ópera recomeça. Fala que vai voltar a dormir e diz para a filha não se preocupar, pois estes aparelhos caros sempre dão algum problema.
Antes de encostar a porta ele observa a janela totalmente escancarada, mas nada faz a respeito. Desconfiado ele volta ao seu quarto. Com as luzes novamente apagadas, o ladrão retorna a ação. Sobe desacreditado, mais uma vez pelo mesmo caminho. Entra sem cerimônias pelo quarto e pensa seriamente em matar todos se algo der errado. Agacha-se e começa a passar seus dedos por entre o chão. Após alguns minutos e com os joelhos doloridos, além de todo o seu corpo, ele se levanta com algo gelado encostando-se ao seu pescoço. O pai das crianças rende o ladrão com uma enorme faca de cozinha.
-Vai fazer mal aos anjinhos que dormem tranqüilos? - Uma voz de hálito podre e grande intensidade se profere com muita calma.
-Eu guardei algo meu nesse quarto -Segurando a ponta da faca com os dedos -E minha vida depende disso.
- Vai, pega o que tu quer e vá de retro demônio.
O ladrão, surpreso com o flagrante e com a decisão do dono do casarão, arma uma história triste, de vida difícil e aluguéis atrasados, mãe doente na fila do hospital e quatro filhos para criar sozinho. O pai abaixa sua faca, ainda presa pelos dedos de Silva, e complacente com a dramática história, oferta as relíquias da casa para o ladrão. Alegando ter dinheiro suficiente nos bancos para repor tudo o que for levado. Desacreditando na ingenuidade e bondade daquele senhor o ladrão fala de uma bela moeda de prata que havia visto no piso daquele quarto e imediatamente se abaixa continuando a busca pelo anel de diamante. No entanto, ao se ajoelhar seus olhos se erguem de súbito.
“Figaro qua,
figaro lá
Figaro su,
figaro giù...”
O garoto em pé, com os olhos ainda fechados, balbuciando coisas sem sentido, leva à boca uma pedra brilhante incrustada em um anel, tão logo engolindo-a e lambendo cinicamente a ponta dos dedos.
Com os olhos arregalados e uma forte falta de ar atingindo seus pulmões, o ladrão observa pasmo o garoto voltar a sua cama e deitar-se novamente. Um sonoro “NÃÃÃÃÃOOOOOO” corta a madrugada. Uma loira tingida, com as raízes do cabelo pretas, chega do quarto principal para averiguar o motivo de tanto barulho, ela esta em um lingerie duas vezes menor que a quantidade de gordura em suas curvas permite. O ladrão agarra o garoto e o joga por cima dos ombros, -“Não tentem nada, o anel é só meu e vou recupera-lo”- Os pais confusos com a história, falam que o garoto nada tem a ver com os problemas financeiros do ladrão. A garota acorda e da um grito ao olhar para o rosto mascarado do bandido, ela abraça seus pais dizendo para a protegerem do Zorro. Fárois enchem o quarto de luz e o ronco de um potente motor invade com ecos toda a casa. Os pais falam ao mesmo tempo -“Meu Deus, eles chegaram!”- .
– Quem chegou? - Pergunta Silva, ainda agarrado ao menino.
– Os donos da casa. - A gorda, falsa loira, agarra o rosto com suas mãos roliças. - Óh, e agora? Somos sem teto, moradores de rua que não tem onde cair mortos. A gente olhava essa casa há um mês e nunca aparecia ninguém, ué.
Não havendo sinal de ocupação, eles decidiram ter uma noite de luxo, que já durava três dias. O ladrão Silva, o sagaz, sai em disparada pela porta do quarto e desce as escadarias chacoalhando o menino em seu ombro. Na sala, sem saber o que fazer, ele observa o trinco da porta sendo aberto. Com astúcia, ele entra por baixo das enormes almofadas de um valioso sofá branco de couro.
O casal entra na casa chorando e discutindo, um acusa o outro de descuido. São os verdadeiros donos do casarão, que passaram um mês de férias esquiando em Aspen, na Argentina. A tragédia ocorreu neste último dia de estadia, no hotel da colônia onde estavam. O filho deles de oito anos foi seqüestrado. Voltaram imediatamente para o Brasil, seguindo as instruções de um bilhete deixado no bolso da mãe do garoto.
“Se vuelven a tú casa y esperan mi ligarse. Voy a robar su dinero.”
Os sem teto se amontoam embaixo da cama do quarto principal. O ladrão reza para que o garoto não acorde e nem tenha outra crise de sonambulismo. O casal, debulhado em lágrimas, senta ao lado do telefone. No primeiro toque, Sr. Aglioros atende.
-Alô?
-Cabron, como estás?
-Não machuquem nosso filho.
-déjeme hablar com a esposa.
A Sra. Aglioros segura trêmula o telefone.
-Meu filhinho, devolva meu filhinho.
O argentino tem um palavreado chulo, forrado de palavrões. Seu portunhol enrolado da impressão de que para ele, aquilo esta sendo uma grande diversão.
-Le gusta que le dan candela por el culo?
-Eu não entendo.
-Dinero. Deseo el dinero. Dos millones. Marimacha!
-Meu marido cuida do dinheiro, mas dois milhões? Não teremos esta quantia agora.
Sr. Aglioros pega o telefone de volta.
-Para quando quer o dinheiro e onde vai deixar nosso menino?
-Esta noche. En su casa. Estaré allí con el niño y usted da mi dinero. Pelotudo, no llame al policía.
A ligação cai. O casal Aglioros fica desconsolado. Não podem obter tal quantia a tempo.
Entre suas lamentações, um som de ópera desce pelas escadas e se espalha suave pelo ambiente.
“Che furia! La ran la, la ran la, la ran la, la”
A Sra. Aglioros cutuca o marido e aponta para o quarto de cima. Enroscam o braço um no outro e sobem cautelosos para averiguar a origem do som. Na sala, o ladrão Silva, o corajoso, sai do sofá e acorda o garoto.
- Puta que pariu, como pode dormir desse jeito?
Os sem teto saem correndo escada acima para se amontoarem no sótão, segundos antes do casal terminar de galgar os degraus. O ladrão Silva, o bravo, carrega o garoto até o banheiro. Enfia o dedo na garganta do menino, mas ele não vomita. O casal Aglioros observa assustado a cama de seu filho desarrumada, o rádio ligado e a janela aberta. Tremem de medo. Na sala, o ladrão Silva, o insistente, volta a enfiar o dedo na garganta do menino, mas ele não vomita. Furioso, ele vai para a cozinha, abre a geladeira e abre uma garrafa de leite. Aperta o pescoço do menino e o enche de leite cru. Enfia o dedo em sua garganta, mas ele não vomita. O ladrão Silva, o desconsolado, olha atônito para o rosto do menino e este permanece estático encarando-o com olhar confuso. O menino boceja. Esta com sono.
No sótão, a filha dos sem teto começa a se manifestar com espirros estrondosos logo após aspirar uma nuvem de poeira que lhe subiu ao nariz. O pai sem teto, com sua voz gutural, esquece por um segundo onde esta e dá um berro: -“cala boca estrupício”-. Percebendo a merda que fez, fica assustado. O casal ouve os murmúrios vindos de cima. Tem mais alguém na casa. Dão passos cautelosamente, os corajosos Sr. e Sra. Aglioros. Os sem teto passam por uma janela pequena de ventilação, direto para o telhado da casa e se amontoam por lá. Na sala, o ladrão Silva, o louco, chacoalha o menino perguntando repetidamente qual era o motivo dele não vomitar. Vão novamente para a cozinha. Dessa vez ele enche uma colher de óleo e obriga o menino a toma-la. Enfia o dedo em sua garganta, mas ele não vomita. Vão novamente para o banheiro e o ladrão Silva, o teimoso, enfia uma escova de dente na garganta do menino, mas ele não vomita.
O casal Aglioros desce apressado as escadas. O ladrão segura o menino e se joga para dentro do sofá. O casal decide ignorar o aviso argentino e liga para a policia. Ao explicar a situação para o detetive Péricles, este resolve preparar uma emboscada. Prenderá o seqüestrador no momento em que ele chegar a casa. Detetive Péricles, um anão de sapatos com solado duplo e uma longa capa amarela (ridícula!) diz que é possível que os barulhos na casa sejam feitos por possíveis cúmplices, - “mas a ajuda está a caminho” -, afirmou ele.
O seqüestrador argentino chega em frente a casa ao lado de um menino encapuzado e toca a campainha. Detetive Péricles o observa, não acreditando que ele chegou a pé. A porta se abre.
-Buenas noches. Deseo el dinero. Aquí está el muchacho
O detetive Péricles surge por trás, na rua, com voz de prisão a pleno pulmão.
-Puta la madre!
O argentino sai correndo para dentro do casarão, subindo escadaria acima. O casal Aglioros se ajoelha e abraça o filho seqüestrado, sem ao menos ter a consideração de lhe tirar o capuz. O detetive Péricles pede reforço policial pelo rádio e sobe como um boneco doido no encalço do seqüestrador. No telhado, o pai sem teto chega a uma triste conclusão, -“O destino é mesmo injusto, estamos em uma bela casa, porém, ainda sem teto.”- Indignados, eles resolvem descer. Saindo do sótão os sem teto se amontoam com o argentino seqüestrador que corria as cegas e em velocidade, com o impacto todos rolam escada abaixo, alguns em câmera lenta.
O argentino embaixo dos glúteos volumosos da mulher sem teto se expressa: -Ay, agora me cago en la tapa del organo y me revuelvo encima de la mierda.
O detetive Péricles dispara dois tiros para o alto.
– Esta todo mundo em cana. Peguei a quadrilha inteira.
Na sala, dentro do sofá, o ladrão e o menino se assustam com os tiros. O menino tenta sair, mas o ladrão o puxa para dentro. Mais policiais entram na casa. Péricles desce após alguns minutos para a sala, dando risada e puxando o argentino algemado. O detetive comenta com os outros policiais sobre o azar que os sem teto tiveram naquela noite. Eles haviam explicado o motivo de estarem ali e, seja qual for o motivo que eles tinham dito, o detetive Péricles acreditou e os liberou, não sem antes anotar o telefone de contato da família (No caso, sem telefone algum). O casal Aglioros continua abraçando o filho, que continua encapuzado. A mulher sem teto pergunta com um semblante preocupado ao policial:
-Mas e o menino?
Péricles aponta para o casal que abraça o filho e diz que tudo já esta resolvido. A mulher sem teto fala em tom quase desesperado:
-O meu menino! Não o dela.
Todos na sala fazem cara de interrogação. O ladrão Silva, o enrascado, dentro do sofá começa a suar frio, mas se acalma diante da impossibilidade de o acharem em um esconderijo tão inusitado. Todos permanecem pensativos por alguns instantes. O argentino permanece ao lado do sofá com ares de revolta e seu nariz funga sentindo um aroma azedo. -“Nuestra señora, que amargo!”- Exclama o seqüestrador. E o cheiro começa a se alastrar pela sala. Todos olham para o sofá, um liquido viscoso começa a escorrer das almofadas até o chão, onde cai com um anel enorme, vermelho brilhante, muito bonito. Todos de boca aberta, sem reação enquanto ouvem uma voz abafada gritar desconsolada:
- Filha da puta, menino desgraçado, você vomitou!
Sérgio Ferrari

