domingo, 19 de agosto de 2007

Vintequatrohorasininterruptasdedrogas

“Lindo meu amor. Continue girando, isso, suavemente. Que sol lindo esta por trás de ti. Continue rodando”. Sandro Menetti esta na tomada final de seu curta-metragem. Sua moderna câmera digital capta movimentos ensaiados de Mariane, sua musa inspiradora. “Dê vida à personagem, minha linda. Deixe esvoaçar seu vestido”. Em uma tomada de câmera debaixo para cima Sandro Menetti sente o baque seco na cabeça. Sua espinha treme e a visão começa a escurecer. A musa grita e ele ainda a observa pela câmera numa imagem turva, entremeada pela ponta de seus dedos. Dedos sujos.
“Ah, mas que êxtase na maravilhosa Mariane”.
- Solta logo essa merda, caralho!
Jubilo Demotape corre deslumbrado com o fruto de seu roubo. Esta muito chapado para desviar da musa aterrorizada e a derruba violentamente no asfalto. Ele cruza o parque com a câmera ligada. Nós vamos com ele.


VINTEQUATROHORASININTERRUPTASDEDROGAS


Jubilo Demotape é paria do subúrbio. Ele, aos dezoito anos, declarou-se filho legitimo do underground e passou a freqüentar festas sujas e pervertidas no centro velho da cidade. Casas de swingue, labirintos homossexuais, raves regadas a LSD, Heroína e maconha. Jubilo pirava a noite inteira. Aos vinte conheceu um francês mais pirado que ele que o levou a uma festa de galpão.

- Que puta festa, que som do caralho é esse?

- It’s motherfucking gabber my man.

Jubilo tornara-se fanático por gabber. Uma batida veloz e pesada de musica eletrônica. Dançava freneticamente. Seu corpo balançava de um lado para o outro, trombando nas pessoas e objetos ao redor. Ele não tinha pai nem mãe. Não tinha parentes, não tinha casa. Vivia de pequenos furtos. Ele não tinha ambição, não tinha inteligência e continua não tendo.
Jubilo corre e corre. Ele encosta o visor da câmera no olho direito e continua correndo. A imagem tremida retrata os transeuntes, os carros, a fumaça e na maior parte do tempo o chão.

- Toma no cu filho da puta. Vêm comigo assistir meu curta. Curta do caralho.

Após trinta minutos de corrida, Jubilo Demotape para em frente a um banheiro publico pequeno. Não era químico, era fixo, de paredes grossas de concreto cinza. Ele começa urinar na parede do banheiro, pelo lado de fora, tentando enquadrar a cabeça de seu pênis com a câmera.

- Ei desgraçado, para com essa merda. Filho da puta.

- Vai se fuder seu velho.

Jubilo recomeça sua corrida filmando o velho que estava lhe xingando. Ele corre com as calças ainda arriadas nas coxas.
As imagens são indefinidas, apenas vultos coloridos e trêmulos passam pelo visor da câmera. Jubilo contorna uma praça e derruba com o ombro esquerdo um carrinho de pipoca.

- Vai ficar foda o meu curta. Vai ficar fo - da!

Ele entra em um bueiro semi-aberto nos fundos de um conjunto habitacional. Caminha no lodo sujo e fétido até um cubículo no fim de uma das ramificações do esgoto. Lampiões dão luz àquele local sujo e sombrio. Mais duas pessoas estão sentadas em caixotes de verdura.

-Demorou ô cusão.
-Vão se fuder. Consegui uma porra de uma câmera.
-Se a gente morrer hoje, vai estar tudo documentado.

Os três ajeitaram-se envolta de uma mesa feita de tijolos e Tex abriu um saco de lixo despejando seu conteúdo na superfície.

-Porra Tex. Tem um braço do lado da sua perna. Que caralho é esse?

A luz do lampião bateu sobre um corpo putrefato e espremido no canto do pequeno espaço. Metade daquela carcaça estava afundada na lama e coberta de pequenos ratos que passeavam e mordiscavam toda sua extensão.

- Se liga, Jubilo. Esse é o meu irmão. Ele veio há três dias aplicar uma dose e capotou aqui no chão. Se fudeu.

-Puta merda que massa. Espero ficar assim, sinistrão.

Jubilo Demotape aproximoou a câmera até o cadáver do irmão do Tex e ficou cutucando os ratos com sua bota.

-Senta ai, porra!
-Senhores. Prontos?
-Manda bala. O que vai ser primeiro?

Tex trouxe consigo variados tipos de drogas. O objetivo dos três era ingerir o maior numero possível de drogas sem que o efeito de cada uma agisse no sistema nervoso central antes de concluírem todas as doses. O francês Julianco estimulou esse ato comprando todo o material.

-Estimulo, depressão, alucinação, perturbação. Vamos endoidar.

Valium,
Lexotan, eles engoliram.
Heroína, Eles injetaram.
Metanfetamina, eles engoliram.
Cocaína, eles cheiraram, eles esfregaram na gengiva.
Haxixe, eles fumaram. Durante muito tempo.
LSD, eles engoliram e deram cambalhotas (imaginarias).
Mescalina, eles tomaram junto com o LSD. E esqueceram de aguar os cactos.
Ecstasy. Eles quase esqueceram. Mas pelo descuido contornaram logo com duas balas cada um.

Foram ingeridas nesta ordem. Sem cerimônias. Sem hesitação. Doses de vodka embalavam o ritmo entre cada aplicação. Julianco ergueu a cabeça e começou a assoprar para o alto. Tex sentou-se sobre o cadáver do irmão e Jubilo Demotape dançou uma musica imaginaria, agitando energicamente braços e pernas. O que um médico chamaria de quadro clinico, eles chamavam de experimento Z. A pressão arterial caiu drasticamente. Náuseas e tremores acompanhavam o suor abundante que escorria dos corpos. O pequeno beco de esgoto girava lentamente. A atenção ao que acontecia se reduziu e a agressividade havia tomado conta do olhar de cada um. Jubilo esmurrou uma das paredes e sorriu por não sentir dor. Por ter uma força extrema. Tex experimentava uma sensação de leveza e prazer. Ele havia se tornado um homem poderoso e influente. Julianco observava os lampiões encherem de luz branca aquele cubículo, limpo e brilhante. Suas roupas do século XVIII estavam perfumadas e cortesãs disputavam seu colo. Jubilo apertava com força a câmera em uma das mãos. As ascensões de Jubilo descarregavam energia na muralha de Berlim onde tanto sonhou ir. Sua mãe cuspia em sua orelha enquanto mexia com uma colher de pau o purê de batatas e Julianco dava voltas pelos parques imperiais da china, esperando ser reconhecido pelos pombos como um nobre francês. Tex apalpava as pernas de seu irmão morto, mas este reclamava de suas mãos ásperas. Tex então vomitou diversas pedras de diamante esperando que assim seu irmão perdoasse suas faltas.

- Parece metal retorcido que escorre pelas veias, que me impede de passar. Essa força magnífica que flui com fel pelo caminho. Este alfabeto estúpido, entupido, que me impede de passar, me impede de passar, me passssar...A substancjçlia mistogada preeeeeenchhiall asssssmemtis deliriiova peeeretubaçaum e,confussson. O ar viciaduu esmagavas esmagavas .

Correndo com sangue nas mãos, sangue na câmera, sangue nas roupas. Na cidade já escura. Jubilo Demotape erguia aos céus, a cabeça de Tex. E filmava em círculos a paisagem misógina daquele borrão por onde andava. Ele cantava insultos relembrando as batidas eletrônicas que tanto o completam com energia. Em sua cabeça mil imagens do ontem e do amanhã. E ele não podia saber o que estava fazendo agora. A sua frente cenas rápidas de Julianco nu mastigando cabeças de pombas e tijolos. Julianco sangrando e seus braços com o estomago aberto volvendo tijolos picados. Tex cavando o corpo do irmão, trocando de pele, trocando de lugar. Jubilo esta com o rosto branco de cocaína e corre cada vez mais desesperadamente. Gritando e filmando a cidade e suas visões. Ele interrompe seus passos firmes para escutar as batidas violentas de seu coração. Ele olha abismado para seu peito. Há um buraco vazio por onde o vento passa assoviando. Ele da voltas sem sentido pelo quarteirão. Os prédios estão mais altos do que o costume. Os becos mais claros e menos sujos.

- Lá está o delinqüente.

Uma esguia forma humana contrasta com as paredes de cartazes caóticos que pregam a imoralidade. No olho esquerdo uma câmera aponta para Sandro Menetti e na mão direita uma cabeça retorcida e ensangüentada pende horrivelmente. Parado. Nenhum músculo se move. A impressão é de que não há respiração, nada. O jovem diretor, esta arrependido de ter chamado atenção daquele ser. A musa esconde-se tremula por trás de Sandro. Os assistentes de produção estão reunidos em volta do diretor e apesar do numero superior, a visão do absurdo assusta. Jubilo movimenta sua perna direita para frente, e esta, ao receber o peso do corpo, desaba.

-Pega a câmera. Pega. – Diz Sandro com ansiedade.

Um gordo contra-regra aproxima-se do corpo debilitado e trêmulo e puxa com força a pequena câmera digital.

- Empurra, empurra...
- Empurrar o quê? – Responde o contra-regra surpreso.
- O corpo desse infeliz, tem um bueiro aberto ai.
- Ce ta louco, para com essa idéia.
-Chama uma ambulância, Sandro. – Disse a musa.

O diretor começa a enquadrar a cena a sua frente.
-Joga ele lá, pois eu tive uma idéia genial.

Jubilo Demotape vislumbra um céu multicolorido. Vozes ecoam de todas as direções, balbuciando trechos de poesias. Ele sente sua pele umedecer com uma água podre, repleta de detritos, que começa a rechear seu nariz. Os ossos quebrados, o frio. Ele engasga, enquanto a realidade suja volta em ondas na sua mente. Escuridão forçada. Sem forças para se livrar da água podre. Morte. Afogamento. É um bueiro.

FIM.

No 8º Festival de curtas-metragem da Unepar, as luzes da sala de projeção são acesas. Aplausos e gritos contidos de satisfação. Sandro Menetti aperta mãos e retribui abraços. Sua musa esta radiante. A equipe esta de parabéns. “Ousado”, “Perturbador”, “Uma paulada do inicio ao fim”, vários são os comentários, as criticas. Vai ganhar prêmios.

- Sandro? Por favor,...Sr. Sandro?
- Sim?
- Onde está o ator principal que interpretou brilhantemente o papel de Jubilo?
-Ah, ele é novo. Esta na academia de atores em Nova York.
- Qual o nome dele? Por que não constou nos créditos?
- Seu nome...?
Naquele mês teve enchentes. Naquele mês o cinema brasileiro brilhou. A criminalidade caiu e a inflação voltou a subir.


Sérgio Ferrari