Em uma loja de conveniência qualquer:
- Eu preciso de um favor!
- Pois diga.
- Me faça um favor?
- Faço.O que deseja?
Os olhos percorrem o local.
- Gostaria muito de um favor.
O balconista se irrita.
- Eu sei, mas qual favor?
- Calma lá. Você me pareceu uma pessoa tranqüila.
Suspiro.
- Tudo bem. O senhor precisa ser mais claro.
- Eu já te disse o que quero. Como posso ser mais claro em uma questão tão simples?
- Senhor, há mais pessoas na fila. Por favor, faça logo seu pedido.
Os cotovelos se apóiam na bancada e as mãos cobrem o rosto, balançando em sinal de desaprovação.
- Onde esta o gerente?
Arrepio.
- Mas o que quer com ele?
Falso sorriso.
- Falar uma coisinha ou duas com ele.
Mão direita no peito.
- Sobre mim?
- Sobre o atendimento. Isso inclui você.
Indignação.
- Senhor, é você quem esta dificultando meu trabalho. Eu não fiz nada que tire os méritos do meu serviço.
-Mas eu pedi um favor.
Grito.
- Mas qual favor?
- Um favorzinho qualquer, ora.
Desolação.
- Eu não entendo.
- Você precisa ser mais atencioso com os clientes. Os clientes gostam de versatilidade. Por que me trata com desdém?
Olhos mareados.
- Você tem certa razão.
Olhando para o restante da fila.
- Claro que tenho. Não concordam que este rapaz não está preparado para nos atender?
Murmúrios.
-Está vendo? Todos concordam. Por que agora você não me faz aquele favor?
Chateado.
- Eu não posso.
Franze a testa.
- Ora, mas por quê?
- Eu sou muito relaxado mesmo. Nunca deveria ter aceitado este emprego.
Arrependimento.
- Olha, não é bem por ai. Você pode aprender melhor o oficio.
Tirando o avental.
- Meu pai me colocou aqui. A loja é dele.
- Ele vai compreender.
Pulando o balcão.
- Você abriu meus olhos. Obrigado.
Satisfeito. Estufando os peitos.
- Fico feliz por ter ajudado. O que vai fazer agora?
Passa a mão no cabelo.
- Fotografia. Sempre foi meu sonho.
Aplausos gerais na fila.
- Apesar de meio inexperiente, você tem muito bom senso.
Olhando fixo nos olhos. Voz baixa.
- Me desculpe, mas e aquele favor? Será que ainda posso ajudar?
Balançando a cabeça negativamente, boca espremida.
- Não. Deixe este favor de lado. Você não ia poder fazê-lo mesmo.
- Certeza? Acho que agora sei o que você quer.
Voz de sabedoria.
- Claro que sabe. Pois passou para este lado do balcão. Você não é mais o mesmo.
Um grito no fim da fila:
- Ele amadureceu.
- Acho que sim. Agora preciso ir embora. Meu pai esta vindo, ele pode lhe atender.
- Boa sorte.
Um truculento bate a mão no balcão.
- Próximo.
Ar de indiferença.
- Bom dia. Pode me fazer um favor?
Mau humor.
- Aqui não fazemos favores. Ou compra ou cai fora.
Já caminhando em direção a saída.
- Oras, deveria aprender uma coisa ou duas com seu filho. Nunca fui tão insultado.
Comentários na fila.
- O senhor poderia ter feito o favor para aquele homem.
Suando.
- Desculpa minha senhora. Sabe como é, né?
Todos vão embora. O homem volta.
- Lembra de mim?
- Claro você acabou de sair. Viu o que fez? Espantou os clientes.
- Você me negou um favor.
- Afinal de contas, que favor é esse?
- Você que sabe.
- Como?
- Deixa pra lá. Eu não gostei do clima.
Foi-se embora. O filho volta.
- Pai?
- Fala Robertinho, porque foi embora?
- O homem do favor.
- Ah, sei, sei.
-Pai?
- O quê?
- Me faz um favor?
- Qual?
Tímido.
- Qualquer um. É só um favorzinho. À toa, sem muita importância.
O pai coloca os cotovelos no balcão e leva as mãos à cabeça.
Chora copiosamente.
Sérgio Ferrari.
sábado, 11 de agosto de 2007
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