terça-feira, 31 de julho de 2007

Mudando a paisagem

Sem muita esperança eu passo em volta da Praça Charles Bauder, a procura de um almoço razoável e um local que atenda as necessidades que eu tenho no meu dia-a-dia. Juntei-me a um banco de cimento da praça e fiquei a admirar as crianças, que correm em volta das arvores a minha frente. As pessoas passam apressadas na rua, sem notar quem esta ao lado, sem olhar a paisagem agradável de uma praça aconchegante. Tem pequenos círculos de gramado, arvores de tronco largo e pequenas folhas. Com o começo de uma primavera florida, todos eles cantam desejando boas-vindas à natureza local. Natureza essa, emaranhada entre vários prédios de arquitetura moderna, prédios arrojados e imponentes. E eu não conseguiria alcança-los, mesmo se tivesse o vigor da juventude. Mesmo assim, essa praça me da uma nostalgia muito grande, faz com que eu recorde da infância ao redor de grandes praças, sem muito entender o porquê de sempre ser levado para esses lugares, ás vezes sozinho, ás vezes em grupo, cheirando a orvalho da manhã, junto com o frescor que a sombra de uma arvore pode proporcionar. Mas essa praça é diferente de todas as outras, ela me olha como se convidasse para uma brincadeira. Alguns velhinhos, jogando uma partida de xadrez, dividem um lanche comigo, numa grande confraternização.
Seria tudo perfeito, se não fossem essas pessoas que passam pela praça, em ternos e vestidos, indo direto trabalho como, aos meus olhos, grandes manchas cinzentas, deturpando uma paisagem harmoniosa. Homens e mulheres que por um instante param e me encaram com um olhar invejoso, raivoso. Estou encostado na arvore ao lado da passarela da praça e esses homens e mulheres blasfemam contra mim sem motivo aparente. Meu espanto é enorme, pois não fiz nada que não seja normal. Ninguém além destas manchas cinzentas e apressadas se incomoda com minha presença, eu sou apenas mais um por aqui. Longe da tranqüilidade, presto mais atenção no dialogo destes homens e mulheres, enquanto tranqüilamente, mordo mais um pedaço do meu lanche de ameixas cedido gentilmente pelos velhinhos, mas que esta me dando algumas cólicas leves, tenho intestino meio solto.
M - que horror! Nojo, nojo, aiai...
H - cagão maldito!Meu terno novinho, vocês dessa laia sempre emporcalhando a nossa passagem.
M - Ai! Que nojo...
H - Como vou pro serviço desse jeito?
M - E eu? Brrrrrrrrrr...Que gentinha desajustada essa! Não vou ficar ouvindo tanta calunia a meu respeito. E mesmo porque, eu estou muito mal do estomago. Acho que terei que passar bem depressa pela praça para, realmente, evitar um embaraço. Eu não vou agüentar – Uiii. - Agora o pipoqueiro também esta me xingando, mas eu estou disfarçando muito bem. Minha expressão é das melhores! As crianças agora correm gritando até as suas mães, onde esta a bela harmonia? Onde está a brisa perfumada? O que fizeram com esse chão? Nossa tudo virou uma tragédia. A praça agora cheira mal e as pessoas escorregam em algo sujo, eu também quero sair – Uiii. – Vou-me embora, vou voando de tão rápido e atrás de mim os homens, as mulheres, os velhinhos, as crianças, todos gritando – Maldito, pombo maldito...; Pombo sujo...; Seu, seu, seu poooommmbooooo...!E eu cada vez mais longe, cada vez mais longe...

Sérgio Ferrari