quinta-feira, 12 de julho de 2007

Amigo feromônio

Essa merda de Blogger continua com seu cu docissimo......Sem imagens e em breve em outro endereço....talvez.....Só de raiva!!!!! Será que atingi o limite de imagens? Estou com preguiça de procurar essa informação!Hehehehe

Inspirada em amigos reais em situações surreais. Sujeira mesmo.

Eu preparei minha mochila com dois cadernos finos de 50 folhas, um estojo com lápis, caneta e borracha, algo simples. Penteei o cabelo de forma que ele ficasse o mais descolado possível, ajeitei meus óculos de aro preto, escovei os dentes, passei um perfume de notas cítricas, importado, vesti um pulôver marrom e combinei com uma calça creme, sapatos engraxados. Respiro. Parto no ônibus das 18 horas. Eu estava ingressando no curso de bioquímica.
O primeiro dia de aula estava bem atrapalhado. Calouros passavam de um lado ao outro com olhares perdidos procurando suas salas. O grande campus da faculdade estava repleto de faixas com dizeres de boas vindas. Alunos veteranos faziam panfletagem de festas e comitês de recepção. Eu estava me sentindo bem, fazia frio e a noite estava estrelada. Meu pensamento estava bem centrado nas matérias que estava preste a aprender e naquelas garotas lindas que passavam de rosto corado ao meu lado. Que linda visão, eu estava muito bem arrumado e havia ensaiado alguns olhares penetrantes de sedução, na minha casa. Estava preste a lançar um olhar-cantada para uma ruiva linda que fumava um cigarro preso a uma piteira, quando um rapaz trombou violentamente em mim. Caímos juntos no gramado. Confuso, olhei para cima e cinco caras enormes despejaram baldes de algo pegajoso, que mais tarde descobri ser uma mistura nojenta de água, cola, pó de café e outras coisas mais degradantes. Estávamos ensopados. Perguntei ao rapaz que havia me derrubado, “O que foi isso?”, e ele me olhou em silêncio por bons dez segundos.
“Estava fugindo desses imbecis desde a hora que cheguei. São uns veteranos do curso de publicidade passando trote na gente”.
Levantamos e tirei o pulôver, torcendo-o para tirar o excesso de grude.
“Cara, pensei que os trotes fossem mais leves”.
“Geralmente são. Eles fizeram essa mistureba agora só pra tacar em mim. Uma mina veterana tascou um beijo na minha boca, do nada, ela chegou e me agarrou. Foi em frente ao buteco onde esses caras estavam”.
Dei risada e ele também. Nos cumprimentamos e fomos cada qual para um lado. Olhei em volta e minha ruiva fumante dava gargalhadas em minha direção, “que vexame”, pensei com meus botões.
Após quarenta minutos secando minha roupa no banheiro, subi atrasado para sala de aula, que custei a achar. Calculei ser uma sala de mais ou menos oitenta alunos. Fui me sentar no fundo, no único lugar restante, o que já é incrível, pois geralmente o fundo é tomado as pressas pelos primeiros que chegam. Um professor gorducho e careca, de jaleco branco e óculos na ponta do nariz, rabiscava algumas estruturas moleculares na lousa. Estava tudo silencioso, parecíamos todos prestes a fazer a ultima prova e a tensão percorria o ar. Do lado de fora ouvia a algazarra das outras classes. Pensei que bioquímica era um curso de pessoas mais sérias e o tempo provou que eu estava certo.
Escrevia rapidamente a primeira metade da lousa quando me cutucaram no joelho. Olhei para o lado e senti vergonha pela minha total distração. Havia sentado à direita do rapaz que havia me derrubado, momentos antes.
“E ai, nem tinha percebido que era você”.
“Nem esquenta. Que coincidência! Dois bioquímicos úmidos. Háhá”.
“Qual teu nome?”.
“Rodrigo Lima”.
Rodrigo Lima. Um cara suave. Estava sempre de bom humor. Nos tornamos bons amigos. Ele descobriu meu gosto pela escrita assim como eu descobri o gosto dele por baladas e festas. Em comum tínhamos duas coisas, a paixão pelas misturas de bioquímica e as mulheres. Mulheres, essas eram uma constante na vida dele. Eu mantinha um ritmo lento, porem firme e forte, já Rodrigo abismava os colegas homens. As mais gostosas, as mais bonitas, disputavam a atenção do conquistador. E ele não se fazia de rogado, saia com todas, sem segredo. Meses se passaram e ele mantinha uma coleção de mulheres de vários cursos. Eu havia terminado um namoro relâmpago e estava realmente concentrado em convidar minha ruiva fumante para um encontro. Uma sexta feira treze ao encontra-lo montando um esqueleto de moléculas indaguei:
“Rodrigo, eu reparei numa coisa esse tempo. Nossa sala tem oitenta e quatro pessoas e dessas oitenta e quatro pessoas, sessenta e duas são mulheres”.
“Isso é óbvio, basta contar”.
“Eu sei, mas não é isso que reparei. Eu reparei que você nunca sequer deu em cima de nossas colegas de classe. Por que?”.
“Cara, pra te falar a verdade, eu estava tão ocupado com outras gatas maravilhosas que nem investi no que estava aqui tão perto. Háhá”.
“Então eu tenho a melhor hora pra você começar”.
“Por quê? O que você esta tramando?”.
“Eu recebi um flyer da Juliana. É uma festa no casarão da vila e é organizada pelas minas da nossa sala. A Juliana me fez prometer que você ia e eu fiz ela prometer que a Carlinha vai”.
“Háhá, peraê, quem é Carlinha?”.
“É o nome da minha ruiva fumante”.
“Quer dizer que a Ju ta afim? Bom saber, ela tem cara de mina que gosta de quebrar a cama. Foco na Juliana, Háháháhá”.
“Só que a festa é daqui uma semana, no sábado”.
“Então meu amigo te prepara que hoje vamos ao sambão que tem aqui do lado da faculdade porque o bagulho vai inflamar!”.
Samba. Está ai uma coisa da qual não sou muito chegado. Mas é fato que mulheres bonitas sempre freqüentam e há um clima gostoso e o flerte rola solto, por isso concordei em ir. Após o intervalo entramos na sala para as duas ultimas aulas. Rodrigo queria ir embora para chegar cedo no samba, mas o convenci de ficar e responder ao menos a chamada. A aula era de Análises Toxicológicas e o professor se chamava Doutor Andrade Campelo, graduado nos EUA, exímio mestre na arte das substancias. Uma das minhas aulas favoritas.
“Boa noite classe. Hoje quero apresentar a vocês um estudo a respeito de uma substância que não tem nada de ruim e é raríssima. Ela não é encontrada no ambiente que nos cerca. Mesmo assim, em algumas ocasiões pode estar presente no ar. Alguém faz idéia do que seja?”...
Silêncio na sala.
“Falo do famoso Feromônio. A partir da década de 50 foi cunhado o termo para descrever substâncias químicas que são o grande ativador sexual para muitos insetos. Feromônio vem das palavras gregas phero - que quer dizer "transportar", e "(hor)mônio", combinadas. Podemos traduzir "feromônio", como "transportador de excitação". Como os hormônios, os feromônios são mensageiros químicos, mas, em vez de transportar informação dentro de um indivíduo, eles transportam as informações entre indivíduos de mesma espécie. Não é nada tóxico, mas pode alterar estados físicos e psicológicos. Eu realizo estudos há cinco anos sobre como obter um equivalente sintético a essa substância. Existem no mercado promessas de perfumes que ativam ou até contém feromônio, mas é pura balela. Posso lhes apresentar hoje a primeira dose, fabricada pelo homem, de feromônio”.
Não era comum ele fazer um discurso tão breve sobre algo, mas ele demonstrava tanta empolgação que passou a falar sem parar sobre fórmulas e efeitos. Suas mãos seguravam um pequeno tubo de ensaio rotulado, lá estava a dose de feromônio.
“Esta dose que seguro em minhas mãos, foi testada em chimpanzés e seu efeito foi de três a quatro vezes maior do que o provocado pelo exalar natural de um macho ou fêmea no auge da excitação”.
Eu gostaria muito de saber o efeito em seres humanos. E foi o que perguntei ao Doutor Andrade.
“Não possuo autorização para testes em pessoas. Mas ao que tudo indica, é que o efeito seria o mesmo, com uma única diferença, o alcance seria maior”.
Fim de aula e enquanto alguns poucos alunos cercavam o professor para perguntas a mais sobre o feromônio, Rodrigo me puxava para cairmos logo fora. Eu queria muito poder ficar e esclarecer alguns pontos, mas não teve jeito e até mudei de idéia quando vi a Carlinha indo de braços dados com a Juliana. Saímos apressados.
No samba, Rodrigo e eu passávamos de um lado a outro com copos de caipirinha, rodeando belas mulheres de roupas justas e vestidos provocantes. Rapidamente fiquei desanimado. Perdi o clima de festa rapidamente, o lugar estava apertado e quente demais, o som não era dos melhores e as bebidas eram caras. Olhei para Rodrigo e ele estava agarrado com uma coroa que lhe lambia o pescoço e dizia: “Hum, que cheiro de macho, seu gostoso”. Aquela era uma senhora safada e muito enxuta. Dei risada e por meio de sinais o fiz entender que eu estava indo embora. Ele soltou a coroa e veio em minha direção.
“Pó cara, que isso? Você não esta focado na mulherada?”.
“Rodrigo, to podre. Hoje não rola mais. Semana que vem vai ser show de bola”.
“Beleza então. Eu vou dar um talento na coroa. Falow”.
Caminhando para casa, tropecei em uma pilha de sacos de lixo ao lado de um beco. O barulho de latas assustou um personagem oculto na penumbra do local, ao seu lado uma prostituta de meia calça arrastão lambia os lábios e contava notas de dez na mão.
“Eita nóis!!!”.
Deixei escapar as palavras e imediatamente o personagem oculto passou pela prostituta e parou em minha frente. Eu o conhecia. Doutor Andrade Campelo.
“Olha, o que eu posso fazer pelo seu silêncio?”.
Ele estava visivelmente envergonhado e suas palavras saíram como suplica. Eu nunca me meti na vida de ninguém e não importava se um professor saia com prostitutas ou se fumava maconha ou fosse gay, essas coisas são problema de cada um. Eu estava preste a lhe dizer essas coisas quando ele retirou do bolso o tubinho de ensaio com a dose de feromônio.
“Escuta rapaz. Você é jovem e deve gostar de sexo. Eu derramo algumas gotas da fórmula na sua boca e você vai em algum lugar com mulheres e então ficamos quites, ok?”.
“Que filho da puta” Eu pensei.
“Esse negócio é forte, eu mesmo poderia usar, mas a Carmem é uma puta amiga, a freqüento há alguns anos, por isso prefiro pagar”.
“Eu quero o tubinho inteiro senão amanhã vou direto ao conselho de reitores falar de seus hábitos nas cercanias da faculdade”.
O que eu podia fazer? Ele queria me comprar sem antes saber minha opinião ou reação a respeito do fato presenciado. Tomei-lhe aquilo que lhe era mais caro. E logo minha cabeça fervilhava com inúmeras possibilidades.
“Boa noite professor”.
A semana estava passando rápida e nas aulas eu mantinha um sorriso alegre no rosto, quase um ar eufórico.
“Cara, o que você tem? Ta bobo?”.
“Rodrigo, sábado na festa da Juliana vamos tomar um drink especial”.
“Háhá. Então nem vou perguntar o que é”.
Quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira. Véspera de festa. As meninas da sala estavam em alvoroço. Brincavam conosco, mandavam beijinhos, piscadas, olhares tentadores. Rodrigo me olhava e dizia: “Maravilha, hein?”. O intervalo passou e surge na sala o Doutor Andrade Campelo, com um semblante triste.
“Meus alunos, hoje quero dar uma aula especial. Irei falar a respeito do abuso de substancias, tóxicas ou não. Tudo em demasia se torna nocivo. Quando tentamos multiplicar o efeito de algo, multiplicamos as conseqüências também. Semana passada trouxe uma dose concentrada de feromônio. Eu acreditava ser aquela, uma dose que não podia causar mal algum, mas há dois dias o chimpanzé Chuleta, foi morto pela sua própria companheira, a chimpanzé Zula. O diagnóstico revelou que as doses elevadas de feromônio provocaram sim a atração, por parte da fêmea, mas o alto teor da substancia causou reação adversa, que os pesquisadores denominaram como sendo: um ataque clássico de histeria”.
Besteira. Não podia acreditar nas palavras do professor. Metade do tempo ele falava olhando para mim. Queria me assustar até que eu devolvesse o produto. Não iria cair fácil naquela armadilha suja.
“A histeria é uma estrutura psíquica que mais se aproxima da feminilidade. O desejo no caráter histérico é, como todo o desejo humano, um desejo que se mantém eternamente insatisfeito e por vezes, pode vir a ser algo incontrolável. O meu feromônio foi o gatilho para o afloramento desse estado”.
O sinal tocou e todos saíram apressados. Eu me enfiei no meio daquela leva e não atendi aos chamados do professor. Sábado seria um dia histórico de farra e eu não iria devolver o meu gatilho.
No dia seguinte, acordei tarde e fui direto almoçar. O sol do meio dia queimava a pino, apesar do inverno. Caminhei por dois quarteirões até a casa do Rodrigo. Há quatro casas da dele, parei bruscamente, já totalmente abalado pela minha visão. Rodrigo Lima, aquele cara bacana, sempre presente, correto nas atitudes, estava lá, esse filho da puta, beijando e amassando a minha ruiva Carlinha. Já de boca aberta com a cena, surge a Juliana puxando os dois para dentro do portão, com cara de safada, dando risada e passando a língua nos lábios igual à puta da Carmem, que o professor diz que “freqüenta”. Tudo bem, eu entendo, duas ninfetas vadias querendo dar, quem iria recusar? Pois eu digo, um verdadeiro amigo iria recusar. Aquele puto sabia que eu estava amarradão na Carlinha. Ele nunca nem deu bola pra ela. Voltei pra casa e esperei anoitecer.
“E ai carinha? Ta pronto pra balada?”.
“Claro. Ta pronto pro nosso drink especial?”.
“Manda bala”.
“Pow, pow”. Eu pensei enquanto observava ele tomar o copinho de tequila cheio de feromônio. Não precisava ser assim. Mas naquele momento eu estava com muita raiva. Ele lambeu o fundo do copo e disse ser apenas doce e aquilo nem parecia álcool. Eu disse que era um afrodisíaco da minha avó.
“Háhá. Da tua vó? Háhá. E você não vai tomar?”.
“Relaxa, já tomei a garrafa quase inteira”.
“Então vamos nessa!”.
O Caldeirão da Vila, o ponto que fervia em nossa cidade. Neste sábado fechado para uma festa particular da nossa faculdade. Estavam todos lá. Diversos cursos reunidos. Do lado de fora, ambulantes serviam bebidas fajutas a preços menores e todo mundo aproveitava para encher a cara antes de entrar. Cumprimentamos amigos e tiramos sarro de algumas meninas mal vestidas.
“Ei, vamos cair dentro?”.
“Fechado”. Respondi.
Funk de favela, daqueles mais sujos, agitava a pista. Tava todo mundo “boladão” como dizia o Mc insistentemente. As meninas balançavam o rabo de um lado para o outro, se esfregando em qualquer macho. O lugar, apesar de ter um pé direito alto, o que garante a circulação do ar, estava muito lotado e com a dança e a bebida, suávamos como porcos. No meio da pista eu presenciei a primeira manifestação da dose cavalar de feromônio que tinha dado ao meu amigo. Duas loiras altas e lindas o rodearam e começaram a beija-lo. Gritei um “Uhu” no ritmo do som e me afastei para pegar uma cerveja no bar. Eu já estava pensando que foi muita sacanagem ter feito ele beber tudo aquilo sem saber o que era, passava pela minha cabeça um certo arrependimento, afinal eu poderia estar usufruindo dos efeitos. E também não valia a pena estragar uma amizade por duas putinhas. Peguei a cerveja e decidi ir me desculpar e contar a verdade. Estava tudo mais cheio e apertado. Refiz o caminho para cair no centro, mas estavam todos de costas para mim. Observavam algo no meio. Olhei ao redor e só tinha homens e eles gritavam e riam apontando para o meio. Na hora pensei “O Rodrigo deve estar, no mínimo, sendo atacado por mais de duas mulheres”. Cheguei com dificuldade na clareira do meio e constatei que realmente ele estava sendo atacado, não por uma ou duas e sim mais de vinte mulheres. Seus olhos assustados me encontraram e ele passou a pedir socorro, enquanto as mulheres rasgavam sua pele com a unha, mordiam seus braços e tórax, chupavam seu pescoço. Uma puxava a outra, estavam em êxtase. Pedi ajuda como uma criança perdida, não sabia o que fazer e estavam todos hipnotizados com aquela situação surreal. Algumas garotas estavam chorando, mas mesmo assim avançavam para cima do corpo do Rodrigo, derrubando-o no chão. Suas roupas estavam rasgadas. “Meu Deus, o que fazer?”. “Parem a musica, chamem seguranças”. “Ajudem meu amigo”. Atrás de mim, vi dois ou três seguranças tentando chegar ao meio, mas a musica e o alvoroço continuava alto.
Saia sangue por todo o corpo escoriado de Rodrigo, ele já não tinha forças para lutar com aquelas mulheres. Elas gritavam e gemiam, estavam nuas e lambiam o sangue de Rodrigo. Cada vez mais, unhas arranhavam a pele, tufos de cabelo eram arrancados pelo vão dos dedos e dentes afiados tiravam nacos de sua barriga. O vermelho do sangue, contrastando com o piso branco, trouxe a maioria de volta a realidade, e os homens presentes passaram a segurar com força aquelas garotas, que no momento pareciam mais demônios alados. A musica foi interrompida e os seguranças ergueram Rodrigo. Ele estava irreconhecível. Eu estava estarrecido. A policia, os bombeiros e as ambulâncias invadiram a rua. Muitos pais foram chamados. A direção da faculdade compareceu. Todos estavam confusos e com medo. Ninguém podia explicar o que havia ocorrido. Apenas eu sabia qual era a causa do tumulto, da histeria. Minha cabeça estava doendo. Ao meu lado estava o professor de Analises Toxicológicas Doutor Andrade Campelo. Ele me olhou fixamente e sorriu, com um jeito maligno. Ele sabia.
Na segunda-feira, logo após a tragédia e após um longo domingo na delegacia, onde quase todos prestaram depoimento. Fui à faculdade no período da tarde, visitar Rodrigo. Ele estava na unidade médica do campus, que era muito boa. Entrei no quarto pequeno e simples e observei Rodrigo parcialmente enfaixado. Seus curativos e pontos empapavam de sangue. Ele estava em recuperação. Tomava soro e estava em sono profundo. Fiquei sabendo que ele iria passar por algumas cirurgias plásticas de correção. Felizmente seu rosto não estava danificado. Senti vontade de chorar. Tive que sair do quarto. No corredor passava o professor Andrade, empurrando um carrinho de autópsia coberto por um pano.
“O que é isso professor?”.
“Parece que você usou toda a dose em seu amigo, não foi?”.
“S-sim. Eu cometi um erro. Fui um idiota. Me arrependo”.
“Claro que se arrepende. Eu tentei avisar dos efeitos. Mas ele vai melhorar. Teve sorte por não ter morrido. O efeito já esta se esvaindo”.
Fiquei em silêncio. Não havia o que dizer.
“Quer saber o que tem aqui?”.
“O que é?”.
Ele levantou o pano e lá estava uma caveira com alguns nacos de carne e vísceras. Era um corpo médio. Ossos estranhos e um crânio achatado.
“Este é o chimpanzé Chuleta. Ou o que sobrou dele após o ataque de Zula. Ela quase o devorou inteiro. Háhá”.
O professor empurrou o carrinho e foi caminhando pelo longo corredor. Olhei para a porta do quarto de Rodrigo e fui embora cabisbaixo.
No quarto, Rodrigo havia despertado. Lembrava de pouca coisa da noite de sábado. Estava imóvel e com o corpo dolorido. Ele olhou para o alto e suspirou. Da lateral da cama, ergue-se a cabeça de Juliana, com olhos injetados de sangue, histérica, mergulhando seus dentes nos lábios de Rodrigo, que gritava abafado enquanto o sangue escorria pelos lençóis.


Fim


Sérgio Ferrari


© ®

Reflexo da Loucura

Conto clássificado na fase regional do Mapa Cultural de 2005. Foi o grande vencedor na cidade de Osasco, entre centenas de participantes. Infelizmente não passou pela fase Estadual, mas já tem méritos suficientes e qualidade inegável para lhe prender na frente do PC com um suspense sobrenatural bem diferente. Não é de minha autoria. Pertence ao amigo Paulo Henrique Facchini. Novamente o Blogger esta de cu doce e não consigo postar imagens para interagir com esse conto, mas nada tão grave assim, né? Enjoy!!!

(Prova de que não sou mentiroso: http://www.osasco.com.br/on212.php)

Dizem os antigos que numa cidade ribeirinha ocorreu um fato que todos ainda tentam confirmar como lenda. Ocorreu no interior do estado, quando ainda éramos um povo dominado pelas oligarquias rurais.
Numa cidade do interior que era cortada pelo Rio Tietê, vivia um imigrante alemão por volta de quarenta anos, seu nome era Hans Wats, era filho de Rug Wats e deste havia herdado as terras. Suas terras ficavam ao lado do rio e eram improdutivas.
Hans sempre culpava seu pai pelos problemas, afinal a situação dele, de sua esposa e de seus três filhos não era nada boa. Alcoólatra desde moço tinha o costume de depois da lavoura ir até o bar Rabo de Galo e acabar sozinho com uma garrafa de cachaça.
Certa noite, Hans chegou bêbado e revoltado em casa. Abriu a porta e resmungando foi direto para o banheiro. Fechou a porta com a taramela e começou a urinar, enquanto urinava sentia raiva do pai, afinal, depois que o velho fugiu, as terras nunca mais deram lucro e ainda tinha que ouvir no bar os outros zombarem de seu trabalho.
Terminou, fechou o zíper, e virando-se deparou com o espelho. Seus olhos envesgavam-se e ele continuou a olhar fixamente na figura. Dado um tempo, começou a enxergar no espelho o reflexo do seu pai. Resmungou da vida e começou a xingar a imagem, xingou tanto e aquilo lhe dava tanto prazer que se sentindo cada vez mais macho começou a desafiar a figura para um combate.
Seus dois filhos menores e sua mulher choravam e batiam na porta que não abria devido a taramela.
Hans olhava para o espelho e apontando para o mesmo disse em bom tom que quebraria a cara do pai se o visse. Antes de reparar algo, sentiu um punho cerrado acertando em cheio sua orelha. Perdeu a embriagues, sua coragem extinguiu-se na mesma velocidade, mas a flagelação não parou. Sem entender e ver ninguém, sentia golpes maciços acertar todo seu corpo. Era jogado de um lado para o outro com os golpes que o atordoava. Desesperado, tentou correr para a porta, a taramela rodava, mas nunca parava de modo que ele pudesse abrir a porta. Chorava como criança, e apanhava como adulto, até que escorregou, bateu a cabeça no chão e ficou desacordado.
Seus filhos e mulher, descalços sentiram algo molhar seus pés, olharam para baixo e em pânico viram o sangue passando por baixo da porta. Chorando desesperadamente pediram para a filha mais velha ajudar a abrir a porta, esta por sua vez fez-se de rogada e continuou na cama.
A menina, que sabia um pouco sobre ciências ocultas, deitou, fechou os olhos, e fez uma concentração até sair de seu corpo.Foi vagando até o banheiro, onde viu seu avô chorando olhar para o filho estatelado no chão. A menina ficou comovida, mas sem esperar viu Rug correr e entrar no seu corpo.
Rug tomou a forma da menina, levantou-se da cama. Andou calmamente até a família que chorava e disse para não se preocuparem que era só um acidente da bebedeira. A mãe ainda fragilizada tentava acalmar aos dois filhos menores. O que surtiu efeito momentâneo.
Rug na forma da menina disse para os cinco ficarem calmos que ele só ia resolver um assunto e já voltava. Ninguém compreendeu direito, mas não deram importância afinal o importante era que Hans estivesse bem.
A menina de aproximadamente quinze anos chegou no Bar e perguntou onde estava o Nino, este que era um dos maiores agricultores da região. Os homens com malícia no olhar, afinal apesar de nova a filha de Hans já tinha porte de mulher, indicaram o banheiro. Ela pegou uma garrafa de conhaque pelo gargalo e andou até parar em frente a porta do banheiro. A porta abriu, Nino de quase setenta anos olhou aquela loirinha linda com a garrafa na mão, deu um sorriso e levantou bem a aba do chapéu. Rug sentiu que era a hora, virou-se um pouco e puxou a garrafa com toda a força, um golpe realmente forte na testa do Nino o que assegurou a queda. A garrafa quebrou e mais do que depressa, Rug pegou um caco de vidro grande e passou no pescoço de Nino. A pele esticou, enrugou e verteu sangue numa quantidade que as mãos de Nino não conseguia estancar.
Os outros olhavam perplexos e sem nenhuma reação. A menina largou o caco, se levantou e olhando para os outros saiu andando calmamente. A calma foi tanta, que qualquer um ali ficou pensando duas vezes em denunciar e correr o risco de ser o próximo.
Rug voltou para casa. Lavou a mão na pia de limpar peixe lá fora perto do poço. Andou lentamente até a edícula e pegou uma pá. Cavou uma cova, nisso a mulher de Hans chorando analisava tudo da varanda. Rug foi até a beira do rio e embaixo da plataforma improvisada de pesca começou a entrar. A mulher de Hans que seguia o corpo da sua filha olhou e foi ajudar a menina. Viu quando de dentro d’água a menina começou a puxar um punho.
A menina olhou para a mãe e esta desceu para ajudar, puxaram o corpo do avô até a cova. O corpo estava lá a trinta anos, era acinzentado, com uma séria lesão na nuca e uma marca de faca nas costas, provavelmente morrera afogado. Deitaram o corpo na cova e como uma mágica o corpo de Rug se desfez sobrando só os ossos dentro da vala. A menina desmaiou e a mulher de Hans desesperada, tomada de um impulso enterrou os ossos.
Dizem que Rug Wats descansou em paz depois do feito. Que as terras de Hans Wats são até hoje grandes produtoras de policulturas, e que Hans morreu podre de rico degolado com um caco de vidro. Sua primeira mulher, mãe de seus filhos, ficou louca e morreu anos depois no manicômio. Seus filhos venderam suas terras anos depois. E sua filha nunca mais foi vista, a não ser próxima a fontes d’água e espelhos a procura de seu corpo.

Um conto de Paulo Henrique Facchini.
Osasco, 24 de maio de 2005.

Jurandir, O Malandro do Km 13.

Esse conto divertidissímo, foi escrito pelo amigo Paulo Henrique Facchini, e ele disponibilizou para este blog. Galera, dessa vez não vai ter imagem, porque o Blogger esta fazendo cu doce e não tá postando as divertidas e agradáveis imagens que acompanham o Jurandir. Quando tudo estiver OK eu republico! (essa palavra existe?)

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Época do samba de gafieira, o jogo do bicho faz de seus dirigentes verdadeiros mafiosos, os malandros povoam os guetos, mas nenhum é tão admirado e esperto quanto o bronzeado e forte Jurandir.
Morador de um cortiço humilde no bairro Km 13, Jurandir conseguia tocar sua vida a base de suas malandragens e como ele mesmo dizia: “Não confunda malandro com maloqueiro, afinal eu engano, mas não roubo!”.
Camisa chamativa aberta até a altura do peito assim exibia as correntes de ouro maciço, calça boca de choro, sapato e na cabeça seu famoso chapéu panamá. Pra cima e pra baixo, com o gingado malandro.
Levava a vida através da malandragem. Pagava o aluguel com o dinheiro que ganhava na sinuca. Não trabalhava, era patrocinado por uma madame da alta. Para ser patrocinado ele precisava apenas ir três vezes na semana a mansão no horário do expediente do marido dela, dono de uma joalheria. As correntes de Jurandir eram todas presentes de lá.
No cortiço respeitava a mulher de todos. Ali também existia uma tal de Dona Dirce, uma quarentona desquitada, redonda e com fortes sinais de desgaste com o passar dos anos. Era a vizinha dele, mulata feia, que pouco se banhava e perdidamente apaixonada pelo malandro.
Jurandir de vez em quando fazia um carinho nela porque em troca tinha roupa lavada, passada e cheirosa. Lavava até as cuecas . O caso era totalmente secreto, ele fazia questão do sigilo. Afinal o malandro fazia aquilo por preguiça de cuidar da própria roupa.
Com seus rendimentos estava longe de possuir um automóvel. Só sabia dirigir porque trabalhou muito tempo como manobrista. Perdeu o emprego depois de flertar com a esposa de um cliente, mas não foi ruim para ele não, pelo contrário.
Ele foi embora levando o uniforme de manobrista e quando queria impressionar vestia aquela roupa e ia até o antigo emprego. Todo sábado ia ao restaurante um senhor chamado Oscar, dono de um carro esportivo, caro e lindo. Esse mesmo senhor só saia de lá no encerramento do movimento.
Ou seja, Jurandir pegava o carro como manobrista, trocava de roupa, dava suas voltas, no final da noite entregava o carro pontualmente de tanque cheio (dizia que era cortesia da casa) e ia embora sem ser percebido já que o restaurante era o mais movimentado da cidade.
Era o seu truque para alimentar o sonho de ser rico e também conseguir namorar as meninas ricas. Era bonito, cabelos e olhos castanhos, sobre a boca um bigode fino o qual passava o dedo sempre que dava alguma investida. Seu jeito fácil de falar e sedutor o classificava como um “bom de papo”.
Certo dia foi na quadra do Esportivo, clube onde sempre tinha bailes embalados aos sucessos de Demônios da Garoa. Estava com seus companheiros bebendo cerveja e dando risada. A paquera dava esperança e resultados para todos presentes.
Com o passar das horas o salão foi ficando vazio e alguns rapazes arranjaram confusão. Briga generalizada, todos foram para a delegacia, exceto Jurandir. Ao ver a policia chegar pulou o balcão do bar, pegou um avental, tirou o chapéu e olhou as prisões serem efetuadas. Voltou pra casa antes de ser reconhecido como arruaceiro.
Dentre os vizinhos de Jurandir estava o seu Raul. Seu Raul tinha trinta e seis anos, nunca sorriu nem cumprimentou alguém. Muito alto, forte e um tanto desengonçado. Saia de manhã cedo. Voltava no fim da tarde e não saia mais. Alguns diziam que tinha mulher, outros que não, a questão é que Jurandir nunca tinha visto mulher alguma.
O malandro conheceu uma menina um tempo depois. Seu nome era Maria. Ela era tudo que o malandro gostava, mas ele não era o homem que ela sonhava em casar e muito menos o que o pai dela aceitaria como genro.
O pai dela foi o primeiro que não caiu no golpe do carro do senhor Oscar, nem no ouro das correntes. Era um homem muito esperto, foi policia até ser acertado e agora era dono do Botequim do Agenor. Vivia no meio da malandragem e sabia que Jurandir tinha o perfil exato dos malandros boêmios. Assim Agenor decidiu que Jurandir só poderia visitar Maria se fizesse algo que enaltecesse sua pessoa.
Jurandir ou Jura como era chamado pelas mulheres voltou à ativa, atacava todas sem distinção e elas iam a loucura. Ele e Altair, seu melhor amigo, faziam-se de bons cristãos só para na missa de domingo conseguir ficar mais próximos das moças e marcar encontros que em sua maioria eram frustrados pelos irmãos e irmãs mais novos, enviados pelos pais para evitar que as filhas fossem seduzidas e defloradas.
Jurandir conseguiu na missa de São João uma proeza inigualável. Marcou de sair com Ana Selma, foram ao cinema e o rapaz conseguiu deflorar a garota mais bonita e desejada de todo Km 13. Ela apaixonou-se, mas não passava de mais uma fã porque ele só pensava em Maria.
Começou a se sentir desmotivado para as outras mulheres. Mantinha sim a mesma vida de malandro e boêmio, dando carinho a madame e a Dirce fedida, mas como lazer não queria mais mulheres. Na sinuca não era mais absoluto, começou a perder e o dinheiro do aluguel ficou apertado.
Cada vez mais deprimido deixou de sair de casa quando seus amigos iam atrás de mulheres. Altair veio um dia até sua casa e tentou colocar em sua cabeça que ou Jura deixava de viver como malandro e passava a trabalhar ou esquecia de uma vez Maria porque o pai dela nunca aceitaria um malandro.
Ao ouvir falar em ter que trabalhar, Jurandir suou, ficou com medo e desistiu de Maria. Vestiu sua melhor troca de roupa, Altair sentia-se feliz em ver o amigo motivado daquele jeito. Saíram, se divertiram e quando voltaram o rapaz ficou em casa embriagado.
Deitado, acordou. Ainda mantinha os olhos fechados. A cabeça doía por conta da ressaca. Ficou pensando sobre coisas cotidianas até perceber seu raciocínio ser interrompido por um choro muito baixo. Abriu os olhos como se ajudasse na percepção. O choro continuou, irritado fechou os olhos de novo até dormir, mas não antes de planejar algo.
No outro dia, olhava pela janela. Estava de pijama e viu seu Raul saindo para ir trabalhar. Calçou os chinelos e correu até a casa do vizinho. A porta estava trancada. Pensou um pouco. Foi até a quitanda próxima do cortiço. Roubou uma folha de jornal que era usada para embrulhar as frutas. Voltou, colocou a folha por baixo da porta do vizinho e com o mindinho empurrou a chave até ela cair do outro lado. Puxou a folha e pegou a chave.
Abriu a porta, passou e encostou a mesma. Vasculhou um pouco a casa, impecavelmente limpa. Olhou na cozinha, banheiro até ir ao quarto. No quarto viu uma mulher muito bonita e totalmente desconhecida.
A mulher se escondia, era a esposa de Raul e pedia para que Jurandir fosse embora. Evitava até o contato visual, apresentava muito medo. Conforme o rapaz mostrava uma postura de valente a mulher começou a conversar mais e esclarecer algumas dúvidas.
Contou que fazia mais de anos que não via o Sol, o ciúme que o marido nutria era tamanho que se o chão da casa não estivesse brilhando era porque ela perdeu tempo traindo e por isso como castigo apanhava. Tentou escapar algumas vezes, mas sempre foi encontrada, por isso desistiu de fugir. Conversaram até o fim da tarde.
Jurandir ia levantar quando a porta foi aberta de uma vez seguindo um golpe forte contra a fronte do rapaz que caiu desmaiado. Raul trancou a porta, duas voltas na fechadura. Tirou o chapéu, o paletó e a camisa. Expôs os punhos serrados, a calça segura pelo suspensório e botinha, de operário.
A dor era imensa, sentia como se tivesse bebido todas e agora a ressaca chegasse. Abriu os olhos, não estavam bons. Sua visão estava turva e sem nitidez. Já a escuta estava perfeita e demonstrava que o agressor ainda estava lá. A mulher chorava baixinho. Voltou a enxergar normalmente.
O gigante Raul estava com um cutelo na mão, sentado numa poltrona. Sua mulher pedia para que não acabasse com Jurandir, mas isso só irritava mais o marido. Levantou. O malandro que nunca teve a coragem como virtude, deu um grito de socorro tão alto que deixou o dono da casa sem reação por alguns instantes.
O gigante retomou o raciocínio anterior, apertou o cabo do cutelo, deu dois passos e levantou o braço que empunhava a arma. Jurandir rezava e jurava que nunca mais ia ser daquele jeito. Nessa hora arrombou a porta e entrou cabo Antônio, vizinho de cortiço com arma em punho e pedindo que Raul abaixasse o cutelo. O homem atendeu e logo depois foi preso.
Jurandir deu um suspiro longo e saindo falou com Deus que nunca mais ia ser daquele jeito. Não ia ser mais intrometido na vida do outros. Foi ai que viu um fotografo do jornal da região que passava por ali e queria cobrir o caso. Conversaram um pouco, bateram uma foto e Jura deu uma quantia ao repórter.
No outro dia, no caderno dos acontecimentos diários a noticia em destaque era que o corajoso Jurandir Neves para proteger uma mulher que mal conhecia lutou desarmado contra marido opressor, ciumento e munido de um cutelo, e tudo isso porque era um cavalheiro e um homem honrado.
Era a prova que Jurandir precisava para mostrar para a sociedade, e para o pai de Maria, que tinha caráter e era digno o suficiente.

Um conto de Paulo Henrique Facchini.
Osasco, 29 de junho de 2005.