Por quatro anos, o doutor Mondie Mondrilá, pesquisou as tribos aborígines da Oceania. Seus artigos foram publicados por todo o mundo. Respeitado antropólogo, era orgulhoso e excêntrico. Sua fama era feita também de grandes festas dedicadas a amigos do meio acadêmico. Foi em uma dessas festas que fez o seguinte anuncio:- Caros amigos. Anuncio minha partida, pela manhã do próximo dia, para o Brasil. Hospedar-me-ei na casa de um primo distante, que com muito carinho concordou em me acolher pelo tempo necessário para que eu os apresente uma descoberta magnífica, única e surpreendente. Posso lhes adiantar que uma nova cultura esta prestes a ser difundida, e até mesmo arrisco dizer – Com uma risada debochada, o doutor ajeita seus monóculos – que uma possível premiação da academia de antropólogos esta por vir.
Corado e desajeitado, Mondie voltou a se sentar, sorvendo goles ruidosos de seu copo de água. No dia seguinte, os preparativos da viagem foram organizados e tudo estava pronto, doutor Mondie fechou sua mala de couro de jacaré, da qual tinha muito ciúme, uma raridade, pois já não fabricavam mais peças de tão boa qualidade. Trocou duas palavras com o aborígine, que havia passado à noite em seu quarto, em sua língua – Toc ank padarats? Ank pac tuctu lep lep! O nativo se levantou e saiu de dentro do armário onde havia dormido e seguiu o doutor escada abaixo dando passos ritmados e cantarolando um ritmo de sua tribo. No aeroporto, as pessoas olhavam curiosas para o doutor Mondie e seu acompanhante, um aborígine de pele negra e lustrosa com uma túnica amarela, lisa e perfumada. Em seu pescoço havia correntes douradas que terminavam em pedaços de osso, talvez de algum animal pequeno das savanas. O fato é que o andar desengonçado do nativo em sandálias de couro acompanhando apressadamente os passos do doutor era motivo de chacota de algumas pessoas. O nativo, que não compreendia muito bem todos aqueles olhares e risadas, sorria de volta acenando para todos. Na casa de Victor Gusmão, em São Paulo, a arrumação do andar superior de seu casarão já estava terminada. Uma ultima espanada e tudo estava pronto para receber o renomado doutor Mondie Mondrilá, filho de uma tia-avó da falecida mãe de Victor. Ele era bibliotecário num acervo de livros do governo. Catalogava os livros apenas nos fins de semana, no restante dos dias escutava musicas românticas em sua casa enquanto pintava quadros de paisagens, um hobby que preenchia sua vida solitária. Na chegada ao Brasil, a aeromoça mal abre a porta e da um salto para fora. – Esse homem é louco. O nativo estava nu e chacoalhando o corpo freneticamente, Mondie estava logo atrás dele tentando cobrir o aborígine desacostumado com a cultura brasileira. Na casa de Victor Gusmão. – Querido primo, agradeço desde agora tão agradável recolhida que me proporcionou. Prometo não incomoda-lo muito durante minha estadia. O dono da casa estranhou muito o nativo, mas achou engraçado seu jeito simples. Pensou até mesmo em pintar um quadro para presenteá-lo. Os dias passaram e o doutor ficava a semana inteira trancado no andar de cima junto com a sua descoberta. Segundo suas palavras, aquele era um aborígine de uma tribo nunca vista. Ficavam escondidos em cavernas.
Tudo era silencioso. Para Victor, isso era muito bom, assim poderia trabalhar em paz. Alguns baques no piso eram ouvidos durante o dia. Victor parava de pintar por alguns estantes para prestar mais atenção. Mas logo voltava a se concentrar. O doutor não mais descia as escadas. Alimentava-se em seu grande quarto. Após quatro dias, algumas visitas começaram a aparecer. Pessoas de alta classe paravam seus carros no quintal de Victor. Este abria a porta surpreso com a quantidade de ilustres. Eram aristocratas que ele conhecia de vista nos saraus do governo. Subiam e cumprimentavam o entusiasmado doutor Mondie. Seguiram-se mais duas semanas e o barulho de pés batendo no andar superior aumentava cada vez mais. Doutor Mondie Mondrilá, em um sábado recebeu mais de cinqüenta pessoas. Todas ricas e bem vestidas. Convidou seu primo a subir. Este recusou, pois havia de trabalhar. Antes o doutor pediu alguns frascos de tinta. Pela noite, Victor abriu a porta de sua casa e ouviu uma grande batucada e a voz em coro das pessoas no andar de cima: - Lep lep, lep lep, tuctu lep lep. Em meio às gargalhadas e muitos pulos no chão, a estrutura da casa começou a ranger e o frenesi aumentar cada vez mais. Victor correu a porta de cima e começou a bater desesperado. Foi inútil, suas batidas na porta se confundiam com as batucadas, seus gritos misturavam-se aos de lep lep tuctu. A poeira caia sobre os moveis. Victor correu para o lado de fora e observou a grande janela. Fechada por cortinas. As sombras subiam e desciam. O preocupado dono da casa telefonou para os bombeiros. Os bombeiros telefonaram para a policia (Victor falou de um bando de malucos derrubando sua casa), a policia comunicou um repórter (eles lhe deviam um furo de reportagem). Os bombeiros chegaram junto com os policiais e o repórter. Victor assistiu ao espetáculo da sua casa se dobrando para baixo. Um grito coletivo e todos desabam no térreo. Confusos, sobre as luzes da câmera do repórter, os bombeiros e os policiais e até Victor ficam boquiabertos. Os mais influentes da cidade estavam nus e pintados pelo corpo inteiro com bumbos amarrados na cintura. Envergonhados, tentaram se cobrir enquanto o nativo aborígine erguia as mãos para o céu e continuava a cantar e pular. Parecia uma espécie de agradecimento pelo bem sucedido ritual.
Três meses depois, Victor recebeu as primeiras cartas de Mondie Mondrilá, que já não era mais doutor. Ele perdeu seu titulo depois de expulso da academia de antropólogos.

"Querido primo, volto a lhe pedir desculpas pelos acontecimentos embaraçosos. Depois de virarmos manchetes no jornal, garanto-lhe que estamos bem acomodados na ilha de Tuctu. Aquele nativo é muito hospitaleiro. Eu e estes dignos aristocratas esperamos voltar assim que as pessoas esquecerem daquela noite terrível."
Terminando de ler, Victor enviou resposta esclarecendo fato de que seria melhor mesmo eles não voltarem tão cedo. A dança do lep lep virou moda em toda a cidade, ridicularizando os ricos e divertindo os freqüentadores de sarau. Claro que devidamente vestidos.
Sérgio Ferrari

