sábado, 23 de junho de 2007

Tocha Olímpica

Propaganda cretina dos anos 70. Trata-se de um isqueiro que não apaga nunca chamado ridiculamente de "Tocha Olimpica". O personagem principal é o ator canastrão chamado Rodrigo Pina, interpretando Pedro Ventania. Também conta com as participações de Paulo Henrique Facchini, interpretando O cretino do escritório. Sérgio Ferrari (por acaso EU) interpretando o engenhoso e sujo Zaca e Fernando Ferrari, interpretando Ursinho Bilau na sala de aula.

Fotopropagandanovelaficção. Fotos de baixa qualidade e sem pixel pra aumentar. Pega uma lupa e manda brasa::
















sexta-feira, 22 de junho de 2007

Declarar

Estamos amotinados, ilhados, repreendidos por uma força maior. Estamos nervosos com a velocidade, a futilidade e a preguiça. Quem não gosta de ler? Quem gosta é porque nasceu para!?! Será? A pessoa NASCE para O QUE É? (Sim, eu vi o filme). Quem não lê não sabe o que é imaginação, mas imaginam que sabem. Não sabem não. Assim como pirataria NÃO.NÃO PODE NÃO!
E SIM! OS AMOTINADOS ESTÃO SE REVOLTANDO!
Tá bom. A tendência é digitalizar a vida. Facilitar. E as letrinhas que se fodam? Não meus caros. A gente que espanca teclado tem que moldar as coisas a nosso favor. E já que tudo que tem que ser criado, ja existe de alguma maneira, vamos copiar inovando (estou falando de formatos, por favor). Mas a estória, a história e o contopoema, têm que ser únicos, singulares e divertidos. Nada melhor do que fazer essas letrinhas recheadas de imagem, fotoconto sem ser foto nem conto, sem formato de gibi pornô. Apenas para deglutirmos com os olhos, a bel prazer.

Alguém quer se juntar?

Quanto mais publicar, mais imagens.

Até que a história nem seja escrita. Basta observar.

Será? Ahhhhhhhh....essa eu quero ler de ouvidos....Será que cabe um filminho? Uma musiquinha? tudo inha inho.


Estranho esse quase editorial no meio de tudo.......

Há.

(Estranho não ter imagem depois disso tudo)

Depois eu traduzo.

Abraços!

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Vamos dar uma volta.





23h30min Inicio de passeio

O carro de Dalman Bean esta preparado para ser a maquina mais potente da estrada dos Elmos, uma estrada de 6 km de extensão, deserta e utilizada em corridas clandestinas. Mal iluminada, serve como um antigo e abandonado acesso a cidade de Montafa. Esta noite recebe apostadores e uma platéia alucinada por álcool e drogas esperando pelo deslize dos carros na pista. Dalman permanece lado a lado com seu oponente, dirigindo um Nissan branco surrado pela ação do tempo. Olhando para o rosto de Dalman, está um barbado sem nome roncando o motor de seu Opala vermelho com o interior em vinil branco. Todos apostos e dois minutos para a largada. Objetivo: chegar a entrada da cidade de Montafa. Recompensa: Uma Chevrolet Blazer 0km. Bônus Especial: um dinamômetro para diagnostico de desempenho e dez mil dólares em dinheiro vivo, somente se um dos competidores for destruído durante o trajeto, não importando o método, sendo a única restrição o uso de armas de fogo.
Dois minutos são suficientes para Dalman Bean por em prática o seu vicio, abre o porta luvas e retira uma chapinha de metal junto com o pequeno cilindro de alumínio, despeja o pó branco e o organiza em três fileiras na chapa fazendo-as desaparecer rapidamente, fazendo seus olhos ficarem vidrados, fazendo sua coragem fluir, sua coordenação falhar, é a cocaína que chega ao seu cérebro esburacado.

22h50min O carro da morte

Quarenta minutos antes, no centro da cidade de Morsey, Eva McLuhan tem um ataque epilético na calçada em frente a sua lojinha de doces. Com espasmos violentos, salivando e de olhos virados, ela tomba com violência no meio fio da calçada. A pequena cidade de Morsey já esta adormecida e o único centro hospitalar permanece em greve há mais de uma semana. Abandonada sobre a calçada, Eva já respira ofegante recobrando sua consciência. Um furgão preto com letras brancas enormes pintadas na lateral, com os dizeres: I. M. L. – Instituto Médico Legal, encosta ao lado da senhora. Sr. P. escorrega sua barriga imensa por detrás do volante com certa dificuldade e caminha em volta do furgão para auxiliar a pobre coitada.
- Minha senhora, calma, eu irei ajudá-la.
- Hum, não meu bom senhor. Eu tenho epilepsia e não tomei o medicamento esta noite. Estava a caminho de casa e tive um acesso. Respondeu Eva Mcluhan tentando se erguer sem a ajuda do estranho.
- Eu posso lhe ajudar, estou a caminho do hospital da cidade de Montafa.
Ao puxar um dos braços de Eva, Sr. P. notou a fratura na perna esquerda. O osso da velha senhora formará um L repuxando a pele enrugada, o sangue se coagulava rapidamente formando manchas roxas. Ela esta, em algum nível, num estado de choque e já não sente dor alguma.
- Irei erguer a senhora em meu colo e a colocarei dentro do furgão, pois pela minha experiência, temos pelo menos quinze minutos antes que sua perna piore.
- Piorar por quê? Disse Eva com lagrimas nos olhos e um tanto desconfiada.
- A senhora fraturou a perna.
Sr. P. fechou a porta e entrou rapidamente no furgão. Eva Mcluhan irá ao hospital de Montafa ao lado de uma pilha de cadáveres.


23h47min Luz no campo

A estrada dos Elmos é rodeada por um vasto campo de centeio que se perde no horizonte, nos dois lados da pista. Muitos agricultores construíram suas casas de alvenaria em sua extensão, mas isso foi há décadas atrás. Hoje o local estava abandonado e sem qualquer iluminação, exceto por um gigantesco galpão de madeira com uma pequena casa acoplada em seu topo, situado exatamente no meio do trajeto entre Montafa e Morsey, na beira da pista. Lá mora um humilde casal de agricultores, oriundos do sertão do país, que no auge dos quarenta e poucos anos, mantêm vivas as esperanças de riqueza e paixão através de discussões inflamadas.
- Desgraçada, vaca maldita. Tava se esfregando com quem na cidade?
A loira de cabelos embaraçados caminha para trás em direção a janela.
- Tava não, com ninguém ué!
- Ouvi que não era assim. Toninho falou que sou corno, lá no bar.
Após calar-se por alguns segundos, a mulher balbucia:
- Você é porco. Eu dei para outro mermo. Ele é doutor na cidade.
O homem rústico, de botas, calção e uma regata surrada e apertada contra sua barriga inchada, com manchas de gordura, bufava e mostrava toda sua indignação, chutando caixotes de madeira espalhados pelo chão do quarto. A única iluminação da casa era provida por um lampião de querosene, que faz com que, vista debaixo, a janela de frente para a estrada dos Elmos se torne um farol e único ponto de referencia para toda escuridão que impregna o local.

22h30min Os criminosos ardilosos

Estilhaços de vidro cobrem o chão do banco Royalty na pequena cidade de Morsey. Os dois únicos seguranças do banco, estão amarrados e amordaçados, observando a movimentação de Zé Tracker e seus dois comparsas, Slooby e Eddy Crok. Somando uma quantia de dois milhões em dinheiro, gentilmente cedidos à força pelo banco a Zé Tracker, o bando pula para rua estourando a vidraça da entrada, de modo que o movimento facilite a retirada dos cinco malotes de dinheiro. Esse movimento disparou um alarme alternativo do banco. Em poucos minutos a policia vai cercá-los. Slooby corre em direção a sombra, do outro lado da rua, para ligar o carro da fuga, uma raridade e orgulho de Slooby, um Ford Tunderbird Stock vermelho de 1956. Será uma fuga ligeira, todos entram apertados junto com o dinheiro, assim que o pneu canta no asfalto a policia surge com três carros quebrando o silêncio da cidade com suas sirenes. A tarefa dos ladrões é despistar os carros e achar a melhor rota de fuga. O destino terá de ser a grande cidade de Montafa, onde se localiza o covil.

23h35min Duas maquinas

A traseira do Nissan patina de um lado para o outro, projetando o veiculo como um foguete em direção a escuridão da estrada. Dois segundos de vantagem em relação ao Opala. É o suficiente.
- Maldito, maldito, maldito. O sem nome, com sua barba oleosa e escura, pragueja enquanto troca as marchas de seu carro.
O frio do asfalto é logo extinguido e a borracha quente dos pneus percorre o leito numa dança desenfreada, em um ritmo de velocidade absurda. A ânsia dos pilotos é carnívora, logo o canibalismo de seus carros surge, com seu ziguezaguear cego e objetivo. O Opala imponente, forte e irrefreável, cola a poucos centímetros de um Nissan desvairado e corajoso, ciente de sua tecnologia. As faíscas dão brilho a noite e os dois cavalos se tocam.

23h30min Prenuncio de morte

No lado oposto ao da baderna alucinada, a Estrada dos Elmos recepciona, com toda sua escuridão, a fantasmagórica carona de Eva McLuhan. O furgão lustroso do IML chacoalha sua estrutura, em uma velocidade precipitada, assustadora.
- Senhora, fique calma. É só atravessarmos este atalho e sairemos rapidamente na cidade de Montafa. – Disse o balofo Sr. P., suando como um porco prensado ao volante.
Com esforço, a boca de Eva contorce para cuspir três palavras:
- Não... Tenha... Pressa.
O Sr. P. acelerou mais. Estava entrando em pânico com a situação. Em trinta e cinco anos como legista, Sr. P. gosta de trabalhar com seus clientes rígidos, frios e mortos, no entanto, a perspectiva da morte, o limiar da vida, a proximidade de um ultimo suspiro, deixa seus nervos tilintando como fios de metal. Seu braço começa a doer. O gordo observa ao longe um ponto luminoso, que se aproxima rapidamente. Seus olhos estão vidrados, o rosto inchado e vermelho se contorce para o lado. O lindo campo de centeio que se espalha rapidamente pela planície, é banhado pela luz azulada da noite.

23h25min Sangue e balas

Tiros. Os projeteis passam zunindo entre os carros da policia. O Tunderbird vermelho rasga as estreitas ruas de Morsey. Algumas balas atingem a lateral polida do carro. O barulho seco da intrusa revolta Slooby: - Filhos da puta.
- Anda com essa merda, porra – Zé Tracker gosta da adrenalina e não se importa em ficar pendurado na janela tentando acertar a cabeça de um policial.
O sangue que jorra quente pelo couro do assento é estancado com dificuldade pelas mãos pequenas de Eddy Crok. Duas curvas fechadas, o pneu canta provocando fumaça, a raridade do carro ganha vantagem da lei.
- 10 minutos Eddy e estamos livres. Agüenta as pontas. – Slooby fez a promessa.


23h36min Efeito colateral

Euforia, excitação, onipotência. Dalman Bean, o dono do mundo, mescla sua viagem pervertida no caviar das drogas com a maldita corrida. Não há medo. Os trancos na traseira do Nissan são fortes, Dalman permanece com o controle do volante e freia em pequenas doses para atingir o Sem Nome. Uma paranóia reversível acomete seus olhos com alucinações. Seu carro tem vida. O volante derrete queimando a palma da mão. Tudo treme, a estrada se desmancha lentamente em pedaços, alguns focos de luz despontam na retina, vindos de um horizonte cada vez mais perto. – Elevação. - Ele grita e o carro se embrulha com intento de mastigar seu ocupante. O alivio de Dalman é acelerar mais. Sua viagem não tem fim.

23h40min Abatimento

Slooby leva uma das mãos ao seu ventre. Empapado de sangue, ele ergue o tecido grudado à pele. A bala penetrou em seu corpo pela lateral rasgando sua barriga e saindo na perna de Zé Tracker. Os ferimentos já não importam. A rota da fuga esta a frente deles. A estrada dos elmos recebe criminosos, drogados, famílias, prostitutas, a morte e também os abutres. A voz gutural de Zé Tracker se espalha pela noite: - Não pare no inferno. – O carro ferve e a luz de seus faróis faz surgir em meio à escuridão o carro da morte, o furgão do Sr. P.
- Desvia, porra.
- Cuidado!
Eddy Crok baba sangue enquanto atira desordenadamente para o alto. O thunderbyrd desvia pela esquerda ralando toda a lateral do furgão.
- Desgraça.

23h41min Expirar

Sr. P. enfarta. Sua barriga trava o volante, seu pé se enrijece afundando o acelerador. Eva desmaia e o carro da morte envereda sem controle pista afora.


23h45min Encontro Irrefreável...

A morte vem para ceifar as almas. O Opala do Sem Nome emparelha com o Nissan, aos trancos os carros são jogados de um lado ao outro da pista. O velocímetro marca 220 km/h, o limite é intransponível. O asfalto começa a baixar para os olhos de Dalman Bean exatamente no momento que ele joga o carro totalmente em cima do Opala, a vitória está próxima. O barbado não consegue controlar seu carro.
23h48min40seg... Um marido dedicado, porém traído, é passível de cometer uma loucura. Com fúria no olhar, o caipira rústico e sujo, habitante da única casa da Estrada dos Elmos, agarra o lampião balançando-o com uma das mãos, as sombras dos poucos móveis dançam na parede. Ele gira o lampião e o joga furiosamente em direção a sua mulher. O vidro de querosene explode no peito da loira que voa pela janela envolta pelas chamas, caindo vertiginosamente.
23h48min12seg... O barbado Sem Nome esta desesperado para retomar a dianteira, mal percebe um furgão do IML vindo rapidamente em sua direção. Vindo ao seu encontro.
23h48min36seg... Zé Tracker segura o volante do Ford Tunderbird Stock. Slooby desmaiou devido à perda de sangue, Eddy Crok dá seu ultimo suspiro ainda com a arma em punho. As sirenes podem ser ouvidas ao longe. A velocidade continua e o cheiro de carne infesta o carro. Estão na metade do caminho entre Morsey e Montafa, para chegar à cidade segura, 23h48min38seg, passam por um Nissan coberto de poeira, Zé Tracker perdeu a concentração ao ver um sorriso e os olhos vermelhos de Dalman passarem como um raio. 23h48min39seg, um Opala frita os pneus numa arrancada mortífera. Zé Tracker percebe que entraram no meio de um racha. 23h48min40seg. Nesse exato momento, uma bola de fogo atinge feito um cometa o capô do Tunderbyrd vermelho que afunda contra o chão, erguendo a traseira que gira em L para o outro lado da pista. 23h48min42seg, o Sem Nome sente o calor das chamas se espalhando em farpas por cima do Opala, ele pragueja ao ver o Nissan vencedor e essa visão é tapada pelos dizeres I.M.L. que carimbam seu painel. Os dois carros rodopiam no ar com a violência do impacto.23h48min45seg Zé Tracker recolhe seus dentes espalhados em seu peito, seus movimentos são limitados para tirar suas pernas moídas pela ferragem, antes que todo seu corpo se junte ao fogo infernal. 23h48min49seg. O Sem Nome esta vivo, jogado na pista, sem poder ver pedaços de corpos caindo como chuva pela pista. Um cadáver remendado pela autópsia caindo em cima de Zé Tracker, na única fresta que restou na massa de ferro, é logo seguido pela caçamba do furgão que termina a mistura de sangue e ferro. O Sem Nome tem uma placa de vidro atravessada em seus olhos e por isso também não pôde ver o momento da explosão maior. Tanques cheios e prensados, para não resistir ao fogo. 23h48min55seg, Dalman Bean, esta tão sã como qualquer pessoa saudável, é sua vitória, sua glória infernal. Parado no acostamento, olhando para grande coluna de fogo e fumaça que se ergue no meio da Estrada dos Elmos, Dalman acende um cigarro e traga profundamente a fumaça. Camuflado pelo final do campo de centeio, ele esta salvo dos inúmeros carros de policia que agora chegam. 23h58min45seg. A grande casa queima, levando todas as provas do crime ali cometido, e no fogo a gordura de um assassino derrete em espasmos. Ferro espalhado pela pista, marcas de sangue que se arrastam por metros, fogo, fumaça, corpos e membros decepados por toda a parte. A morte impera absoluta, deixando por testemunha apenas um cego cambaleante, gemendo de dor, implorando por alivio. Dalman olha para o inferno pela ultima vez. Liga seu carro e segue o caminho sinuoso. 00h01min.


O jogo do camaleão


Passos pesados avançam pela longa escadaria do saguão, um homem truculento segue para o andar superior. Seu silencio é cortado por soluços aguados, uma respiração ofegante se reprime num impecável terno marrom. O corredor no término da escada é iluminado por grandes candelabros de prata tecendo uma luminosidade amarelada e opaca que contrasta com as paredes, forradas de quadros antigos. Fora da mansão uma chuva torrencial se derrama por horas. O carpete vermelho se encharca a cada passo do senhor da casa. No quarto principal, uma mãe solitária deita-se abraçada ao seu único filho, uma criança franzina de grandes olhos azuis. Cabelos cacheados contornam seu rosto rosado, doze anos de medo ele tem; e o medo chegou novamente esta noite. Um pontapé na porta do quarto anuncia com o estrondo a chegada de Sr. Ferraz, bêbado e caótico.
Os grandes olhos azuis de Dennis Ferraz se abrem de imediato, fitando com pavor a enorme sombra que seu pai projeta por cima de sua mãe, esta tomou sedativos para adormecer. Ela nunca teve problemas de insônia, usou a toxina talvez para não presenciar uma cena tão rotineira em sua vida. -Vagabundo, na cama com minha vagabunda, não é?- O velho solta labaredas pelos olhos, sua voz rouca rasga os tímpanos de Dennis. – Agora nós vamos hic, fazer nossa brincadeira predileta, hic. O jogo do camaleão, e você já sabe das nossas regras não é vagabundo? Vai desgraçado, corre! Eu te dou dois minutos de vantagem. Sr. Ferraz gritou tirando rapidamente sua cinta de couro estralando-a no ar. Dennis olhou para sua mãe que continuava sonhando e saltou da cama correndo em direção a porta quando a cinta desceu velozmente em suas pequenas costelas jogando-o violentamente contra a parede. Um grito lancinante de dor foi seguido por um choro compulsivo. – É para te lembrar como dois minutos são importantes, seu fedelho. Agora some meu pequeno camaleão. O garoto se ergue ignorando a dor causada pela cinta e pelo baque na parede, corre pelo corredor, sabendo exatamente o que precisa fazer. Entra em seu quarto preenchido com mobílias azuis e paredes brancas. Abre seu closet e puxa uma mala verde de dentro do baú de palha e começa a despejar algumas roupas em seu interior. Veste uma blusa de moletom vermelha com uma calça cinza e calça um par de tênis surrado. Segura firme uma pequena lanterna de alumínio tirada de dentro do criado mudo, pisando levemente caminha até a porta e começa a se esgueirar pelo corredor, sempre com os olhos atentos ao quarto de seus pais. Sua presença de espírito numa situação agonizante como essa se deve a muitas noites semelhantes. Seu pai, ao menos três vezes por semana chega bêbado e irracional.
Sr. Wilson Ferraz, um magnata do ramo industrial. Wilson sempre foi uma pessoa gananciosa, sua família é uma das mais antigas do país e uma das mais ricas também. Sua inteligência e familiaridade com números, com negócios, vêm desde sua adolescência, a vontade de uma vida independente e alternativa somada a algumas amizades perigosas o levou ao império que conquistou hoje. A bebida o levou a outros lugares, um desses lugares é esta noite em sua mansão. A bebida lhe proporciona criatividade para criar, não grandes projetos, mas sim jogos perigosos.
Um trovão ecoou ao mesmo tempo em que as luzes foram cortadas. A única iluminação que resta na casa são as chamas dos candelabros se debatendo sinistramente nas paredes. Dennis se vê perdido na escuridão parcial, seus lábios balbuciam o começo de um choro que é logo engolido, pois as molas da cama de sua mãe começam a ranger.
Dennis passa a maior parte de seu tempo com sua mãe Elisangela Ferraz, uma mulher bonita e bem conservada para seus quarenta e dois anos. Ela não liga para vaidade, apenas preza para o bom gosto quando se arruma. Suas amigas de vizinhança a descrevem como a pessoa mais meiga e gentil do mundo, um exagero que deixaria Elisangela corada se ouvisse tais elogios. Pacata, ela aprendeu a conviver com o homem que escolheu para passar o resto da vida, um dia ela já o amou profundamente e este amor foi recíproco, após cinco perfeitos anos de casamento, Wilson descobriu um novo amor, sua dose diária de cinco copos de rum, cinco doses apaixonadas que afogavam seus problemas da empresa e seu desinteresse continuo pela esposa. Um homem violento e cruel se apossou da personalidade do Sr. Ferraz. Elisangela descobriu o que é ser uma criatura passiva e impotente diante de ataques de fúria e espancamento contra sua pessoa, pior, contra seu filho. Sofreu calada sua decisão estúpida de continuar sobre o mesmo teto, os motivos de permanecer lá só ela conhecia.
O garoto corre em disparada ao quarto do casal, passa pela porta e por Wilson com as pernas bambas e se joga no colo da mãe que esta sentada na cama. Um raio corta o céu por detrás da grande janela ao lado do espelho, iluminando toda a parede onde se encontra parado o homem alterado que um dia foi uma figura paterna para Dennis. – Wilson o que esta havendo? Você esta assustando nosso filho. Porque ele esta vestido assim? Você bebeu de novo, Wilson? Elisangela colocou Dennis em pé ao seu lado e se levantou vagarosamente. – Hoje é o dia do jogo do camaleão, você já conhece. Não se lembra? Brincávamos juntos com nosso filho. Falou Wilson, cuspindo um borrifo de saliva que impregnou o ambiente com um forte cheiro de álcool. – Isto foi há muito tempo homem de Deus, hoje você não está em condições. – Cala boca vagabunda, eu sei como estou e sei como quero hic, brincar somente brincar, hic, você me entende? Se não quer brincar, hic, não atrapalhe. Wilson voltou os olhos para o garoto e dobrou a cinta na mão, ergueu o braço e o descarregou pesadamente na direção do rosto de Dennis. – Você tem que sumir. Sumir entendeu? Antes que a bordoada o atingisse uma cadeira é estourada nas costas de Wilson. Dois passos trôpegos são dados para frente. Dennis, espantado, observa a expressão de raiva no olhar de sua mãe. Raiva e medo. – Cadela, piranha, não pode ter feito isso. Você não tem o direito. Você não presta para mim, nunca foi boa em nada. Wilson encostou-se a um gabinete próximo da cama e agarrou um peso de papel feito de pedra cristal. – É você, Wilson, quem nunca prestou para mim. O pulso do homem se contorceu e alavancou com força a pedra atirando-a contra a cabeça de Elisangela. Uma batida surda, ela estilhaça o vidro da janela com o rosto. Seus olhos abertos permanecem assim, vidrados na chuva, enquanto seu rosto se inunda de sangue. O corpo contorcido se divide entre a cama e o chão. Wilson Ferraz observa impassível seu crime. Desabrocha o nó de sua gravata e se vira em direção ao filho. Dennis não estava mais lá.
O jogo do camaleão foi inventado por Wilson quando seu filho tinha somente sete anos. Assim como os camaleões, Dennis aprendeu a se esconder e se camuflar naquela enorme casa enquanto seus pais o procuravam. Houve até mesmo pesquisa sobre métodos apropriados. Através de seus pais, Dennis aprendeu a não caminhar em espaços abertos enquanto brinca, se embrenhar em sombras de objetos, nunca olhar por cima dos móveis e sim encostar sua cabeça no chão e espiar pelos lados. Era apenas um jogo que unia e divertia a pequena família nos finais de semana. Inocente e criativo, como um esconde-esconde mais elaborado. Está noite, maldoso e destrutivo.

Fazendo movimentos leves, o garoto desce as escadarias se roçando nas traves laterais de madeira. Seu pai dá um grito: - Hoje! Agora! Começa o jogo e ele vai ter um fim moleque, daí você não precisa contar o que houve com sua mamãe. Dennis agacha em frente à porta de entrada no saguão, de imediato sente a presença de alguém em suas costas. – Esqueci de te contar meu filho. Hoje eu trouxe um amigo. O Fred quis muito vir brincar conosco. Ele trouxe até um brinquedinho. Fred, uma das amizades perigosas que Wilson Ferraz conservava. Obcecado por sangue, era um matador de aluguel. Aquela noite, em meio a sua bebedeira, ele não estava a serviço. Iria praticar esporte. Marreta ao alvo. Fred carregava uma marreta um pouco menor que Dennis, um metro e vinte. – Oi pequenino. Sussurrou ele atrás de Dennis. Fez um pêndulo com a marreta e direcionou para o pescoço do garoto. Petrificado, Dennis acendeu a lanterna em direção aos olhos do inimigo. Ofuscado, praguejou contra a vida do garoto. – Amaldiçoados sejam seus últimos momentos. Dennis rolou seu corpo para as sombras de uma coluna. Levantou-se e calmamente, incrivelmente lento, começou a contornar em forma de oito as várias colunas que desembocavam na grande cozinha. Wilson desce correndo as escadas, trazendo a cinta em suas mãos. – Há, há Ferraz, esta cinta me dá pena de você. Já te falei que é preciso armas de concussão ou simplesmente uma faca para se divertir com as vitimas. Fred chacoalhou a cabeça molhando os móveis a sua volta. Seus cabelos ruivos e compridos grudaram em seu rosto. – Se você subir irá ver a arma de concussão que usei em minha mulher. Dennis entra no armário debaixo da mesa central da cozinha. Uma mesa comprida com portas corrediças de alumínio, por cima uma grande placa de mármore branco sustentava uma coluna de gesso que subia até o teto.
Engatinhando ele derruba uma panela por cima da outra. Os dois homens correm com fúria até a cozinha. – Bom pequeno camaleão. Seu pai não te ensinou a não fazer ruídos quando estiver se escondendo? Fred empunha a marreta e fixa o olhar nas portas de alumínio. Na mesa, envolto em penumbra, um forno encosta-se à parede. Wilson fez um sinal de silêncio e atenção enquanto aperta a mão no gancho da porta. A porta corre e a marreta destrói seu interior, nisso Dennis desliza de cima do forno e começa a correr por cima da mesa. Fred dispara um golpe de cima para baixo que acerta o centro do mármore que se parte em dois voando estilhaços nos olhos de Wilson. Este grita de dor. Sua vista embaçada pelo sangue somente vê um vulto fino se aproximando com velocidade em direção a sua boca. Fred extravasa sua fúria em Wilson jogando a marreta em seu rosto. – Maldito moleque, está vendo o que você provocou? Papai está morto. Sr. Wilson Ferraz esta caído no chão da cozinha com a face voltada para dentro de seu crânio, seu corpo continua tremendo involuntariamente. Fred dispara escadaria acima destruindo os candelabros do corredor. O fogo põe em chamas os quadros. Para Dennis esta visão infernal era o começo do fim desse jogo.
Ele pega um lençol negro no quarto de hospedes se enrola e pula a janela. A chuva virá tempestade, enquanto um garoto de doze anos caminha por um telhado alto e antigo. Fred chega à janela como um insano. Dennis se joga deitado contra o telhado aproveitando a camuflagem do lençol na sujeira de décadas. Fred fica de pé com dificuldade, o vento trespassa sua grande capa de lona. Erguendo a marreta a bate com força nas telhas a sua frente. Um racho começa a se recortar em direção de Dennis. – Onde um camaleãozinho poderia se esconder? Eu vi você pulando aqui. Uma lanterna se acende no lado oposto ao de Fred no telhado. O facho de luz é seguido de passos rápidos que estalam o telhado. Dennis preparou uma armadilha. Fred corre pesadamente e salta em direção a luz, com um sorriso final, fatal. Seus olhos se arregalam para distinguir a lanterna, um pedaço de lençol e uma grande placa de vidro que faz teto para o saguão. A marreta arrebenta o vidro. Fred cai vertiginosamente.
Dennis se senta ao lado da chaminé observando as luzes das casas vizinhas. A chuva bate em seu rosto e devolve constantemente uma realidade da qual ele se prende por um fio. Esta tranqüilo, quando o Sr. Jonas Pomes, o vizinho ao lado, começa a acenar para ele. O garoto acena de volta e se cobre novamente com o lençol, Jonas desvia por um instante o olhar e pede para sua esposa chamar os bombeiros, quando volta a procurar o garoto, este desaparece em meio à escuridão e trovoadas. Fred esta no piso de entrada fincado em sua marreta em meio a cacos de vidro que se quebra cada vez mais, à medida que o fogo consome tudo a sua volta. Seus cabelos vermelhos se misturam as chamas, tornando-se parte delas.
Toda a casa, aos poucos se torna igual ao seu ambiente externo, escuridão e tempestade. Cinzas negras, que marcarão por muitos anos a vida de Dennis, um camaleão que nunca se deixará encontrar.

Sérgio Ferrari

domingo, 17 de junho de 2007

Manuscrito sujo de um moribundo.

Eu quero terminar todos os sonhos despedaçados, ter de volta meu coração, e livrar minha alma das tristezas que envolvem as frias e escuras florestas. Quero caminhar ao amanhecer com o sol me ofuscando e disperçando os demônios. Vou queimar todas as lembranças que se afogavam em sangue. Por onde eu passar o vento vai levar aquelas cinzas escuras, que nunca mais vão voltar. Tendo o poder de decidir quais os caminhos para o céu.Acreditar quando eu ver, as provas da existência de uma noite perfeita, sem as sombras da morte ou da incerteza. Por onde eu passar o vento vai levar aquelas cinzas escuras, que nunca mais vão voltar. Tendo o poder de decidir quais os caminhos da vida. Sentir a chuva bater no rosto, fazendo escorrer pelo corpo todos os pecados. E me libertar. Quero pisar nas poças, me vingar, e nunca mais errar. Não quero mais lembrar das mãos tentando me puxar. Fui saindo do inferno correndo pela floresta, furtivo sob o luar. Por onde eu passar o vento vai levar aquelas cinzas escuras que nunca mais vão voltar. Tendo o poder de decidir quais os caminhos do amor.Vou segurar todos os espelhos e lembrar de todos os sentidos, me despindo da vergonha, enquanto um dia lindo amanhecer...E sem me virar, apenas caminhando, encontrando todos os sonhos.
arrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrghhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....-___,,,



Ops!