23h30min Inicio de passeio
O carro de Dalman Bean esta preparado para ser a maquina mais potente da estrada dos Elmos, uma estrada de 6 km de extensão, deserta e utilizada em corridas clandestinas. Mal iluminada, serve como um antigo e abandonado acesso a cidade de Montafa. Esta noite recebe apostadores e uma platéia alucinada por álcool e drogas esperando pelo deslize dos carros na pista. Dalman permanece lado a lado com seu oponente, dirigindo um Nissan branco surrado pela ação do tempo. Olhando para o rosto de Dalman, está um barbado sem nome roncando o motor de seu Opala vermelho com o interior em vinil branco. Todos apostos e dois minutos para a largada. Objetivo: chegar a entrada da cidade de Montafa. Recompensa: Uma Chevrolet Blazer 0km. Bônus Especial: um dinamômetro para diagnostico de desempenho e dez mil dólares em dinheiro vivo, somente se um dos competidores for destruído durante o trajeto, não importando o método, sendo a única restrição o uso de armas de fogo.
Dois minutos são suficientes para Dalman Bean por em prática o seu vicio, abre o porta luvas e retira uma chapinha de metal junto com o pequeno cilindro de alumínio, despeja o pó branco e o organiza em três fileiras na chapa fazendo-as desaparecer rapidamente, fazendo seus olhos ficarem vidrados, fazendo sua coragem fluir, sua coordenação falhar, é a cocaína que chega ao seu cérebro esburacado.
22h50min O carro da morte
Quarenta minutos antes, no centro da cidade de Morsey, Eva McLuhan tem um ataque epilético na calçada em frente a sua lojinha de doces. Com espasmos violentos, salivando e de olhos virados, ela tomba com violência no meio fio da calçada. A pequena cidade de Morsey já esta adormecida e o único centro hospitalar permanece em greve há mais de uma semana. Abandonada sobre a calçada, Eva já respira ofegante recobrando sua consciência. Um furgão preto com letras brancas enormes pintadas na lateral, com os dizeres: I. M. L. – Instituto Médico Legal, encosta ao lado da senhora. Sr. P. escorrega sua barriga imensa por detrás do volante com certa dificuldade e caminha em volta do furgão para auxiliar a pobre coitada.
- Minha senhora, calma, eu irei ajudá-la.
- Hum, não meu bom senhor. Eu tenho epilepsia e não tomei o medicamento esta noite. Estava a caminho de casa e tive um acesso. Respondeu Eva Mcluhan tentando se erguer sem a ajuda do estranho.
- Eu posso lhe ajudar, estou a caminho do hospital da cidade de Montafa.
Ao puxar um dos braços de Eva, Sr. P. notou a fratura na perna esquerda. O osso da velha senhora formará um L repuxando a pele enrugada, o sangue se coagulava rapidamente formando manchas roxas. Ela esta, em algum nível, num estado de choque e já não sente dor alguma.
- Irei erguer a senhora em meu colo e a colocarei dentro do furgão, pois pela minha experiência, temos pelo menos quinze minutos antes que sua perna piore.
- Piorar por quê? Disse Eva com lagrimas nos olhos e um tanto desconfiada.
- A senhora fraturou a perna.
Sr. P. fechou a porta e entrou rapidamente no furgão. Eva Mcluhan irá ao hospital de Montafa ao lado de uma pilha de cadáveres.
23h47min Luz no campo
A estrada dos Elmos é rodeada por um vasto campo de centeio que se perde no horizonte, nos dois lados da pista. Muitos agricultores construíram suas casas de alvenaria em sua extensão, mas isso foi há décadas atrás. Hoje o local estava abandonado e sem qualquer iluminação, exceto por um gigantesco galpão de madeira com uma pequena casa acoplada em seu topo, situado exatamente no meio do trajeto entre Montafa e Morsey, na beira da pista. Lá mora um humilde casal de agricultores, oriundos do sertão do país, que no auge dos quarenta e poucos anos, mantêm vivas as esperanças de riqueza e paixão através de discussões inflamadas.
- Desgraçada, vaca maldita. Tava se esfregando com quem na cidade?
A loira de cabelos embaraçados caminha para trás em direção a janela.
- Tava não, com ninguém ué!
- Ouvi que não era assim. Toninho falou que sou corno, lá no bar.
Após calar-se por alguns segundos, a mulher balbucia:
- Você é porco. Eu dei para outro mermo. Ele é doutor na cidade.
O homem rústico, de botas, calção e uma regata surrada e apertada contra sua barriga inchada, com manchas de gordura, bufava e mostrava toda sua indignação, chutando caixotes de madeira espalhados pelo chão do quarto. A única iluminação da casa era provida por um lampião de querosene, que faz com que, vista debaixo, a janela de frente para a estrada dos Elmos se torne um farol e único ponto de referencia para toda escuridão que impregna o local.
22h30min Os criminosos ardilosos
Estilhaços de vidro cobrem o chão do banco Royalty na pequena cidade de Morsey. Os dois únicos seguranças do banco, estão amarrados e amordaçados, observando a movimentação de Zé Tracker e seus dois comparsas, Slooby e Eddy Crok. Somando uma quantia de dois milhões em dinheiro, gentilmente cedidos à força pelo banco a Zé Tracker, o bando pula para rua estourando a vidraça da entrada, de modo que o movimento facilite a retirada dos cinco malotes de dinheiro. Esse movimento disparou um alarme alternativo do banco. Em poucos minutos a policia vai cercá-los. Slooby corre em direção a sombra, do outro lado da rua, para ligar o carro da fuga, uma raridade e orgulho de Slooby, um Ford Tunderbird Stock vermelho de 1956. Será uma fuga ligeira, todos entram apertados junto com o dinheiro, assim que o pneu canta no asfalto a policia surge com três carros quebrando o silêncio da cidade com suas sirenes. A tarefa dos ladrões é despistar os carros e achar a melhor rota de fuga. O destino terá de ser a grande cidade de Montafa, onde se localiza o covil.
23h35min Duas maquinas
A traseira do Nissan patina de um lado para o outro, projetando o veiculo como um foguete em direção a escuridão da estrada. Dois segundos de vantagem em relação ao Opala. É o suficiente.
- Maldito, maldito, maldito. O sem nome, com sua barba oleosa e escura, pragueja enquanto troca as marchas de seu carro.
O frio do asfalto é logo extinguido e a borracha quente dos pneus percorre o leito numa dança desenfreada, em um ritmo de velocidade absurda. A ânsia dos pilotos é carnívora, logo o canibalismo de seus carros surge, com seu ziguezaguear cego e objetivo. O Opala imponente, forte e irrefreável, cola a poucos centímetros de um Nissan desvairado e corajoso, ciente de sua tecnologia. As faíscas dão brilho a noite e os dois cavalos se tocam.
23h30min Prenuncio de morte

No lado oposto ao da baderna alucinada, a Estrada dos Elmos recepciona, com toda sua escuridão, a fantasmagórica carona de Eva McLuhan. O furgão lustroso do IML chacoalha sua estrutura, em uma velocidade precipitada, assustadora.
- Senhora, fique calma. É só atravessarmos este atalho e sairemos rapidamente na cidade de Montafa. – Disse o balofo Sr. P., suando como um porco prensado ao volante.
Com esforço, a boca de Eva contorce para cuspir três palavras:
- Não... Tenha... Pressa.
O Sr. P. acelerou mais. Estava entrando em pânico com a situação. Em trinta e cinco anos como legista, Sr. P. gosta de trabalhar com seus clientes rígidos, frios e mortos, no entanto, a perspectiva da morte, o limiar da vida, a proximidade de um ultimo suspiro, deixa seus nervos tilintando como fios de metal. Seu braço começa a doer. O gordo observa ao longe um ponto luminoso, que se aproxima rapidamente. Seus olhos estão vidrados, o rosto inchado e vermelho se contorce para o lado. O lindo campo de centeio que se espalha rapidamente pela planície, é banhado pela luz azulada da noite.
23h25min Sangue e balas
Tiros. Os projeteis passam zunindo entre os carros da policia. O Tunderbird vermelho rasga as estreitas ruas de Morsey. Algumas balas atingem a lateral polida do carro. O barulho seco da intrusa revolta Slooby: - Filhos da puta.
- Anda com essa merda, porra – Zé Tracker gosta da adrenalina e não se importa em ficar pendurado na janela tentando acertar a cabeça de um policial.
O sangue que jorra quente pelo couro do assento é estancado com dificuldade pelas mãos pequenas de Eddy Crok. Duas curvas fechadas, o pneu canta provocando fumaça, a raridade do carro ganha vantagem da lei.
- 10 minutos Eddy e estamos livres. Agüenta as pontas. – Slooby fez a promessa.
23h36min Efeito colateral
Euforia, excitação, onipotência. Dalman Bean, o dono do mundo, mescla sua viagem pervertida no caviar das drogas com a maldita corrida. Não há medo. Os trancos na traseira do Nissan são fortes, Dalman permanece com o controle do volante e freia em pequenas doses para atingir o Sem Nome. Uma paranóia reversível acomete seus olhos com alucinações. Seu carro tem vida. O volante derrete queimando a palma da mão. Tudo treme, a estrada se desmancha lentamente em pedaços, alguns focos de luz despontam na retina, vindos de um horizonte cada vez mais perto. – Elevação. - Ele grita e o carro se embrulha com intento de mastigar seu ocupante. O alivio de Dalman é acelerar mais. Sua viagem não tem fim.
23h40min Abatimento
Slooby leva uma das mãos ao seu ventre. Empapado de sangue, ele ergue o tecido grudado à pele. A bala penetrou em seu corpo pela lateral rasgando sua barriga e saindo na perna de Zé Tracker. Os ferimentos já não importam. A rota da fuga esta a frente deles. A estrada dos elmos recebe criminosos, drogados, famílias, prostitutas, a morte e também os abutres. A voz gutural de Zé Tracker se espalha pela noite: - Não pare no inferno. – O carro ferve e a luz de seus faróis faz surgir em meio à escuridão o carro da morte, o furgão do Sr. P.
- Desvia, porra.
- Cuidado!
Eddy Crok baba sangue enquanto atira desordenadamente para o alto. O thunderbyrd desvia pela esquerda ralando toda a lateral do furgão.
- Desgraça.
23h41min Expirar
Sr. P. enfarta. Sua barriga trava o volante, seu pé se enrijece afundando o acelerador. Eva desmaia e o carro da morte envereda sem controle pista afora.
23h45min Encontro Irrefreável...
A morte vem para ceifar as almas. O Opala do Sem Nome emparelha com o Nissan, aos trancos os carros são jogados de um lado ao outro da pista. O velocímetro marca 220 km/h, o limite é intransponível. O asfalto começa a baixar para os olhos de Dalman Bean exatamente no momento que ele joga o carro totalmente em cima do Opala, a vitória está próxima. O barbado não consegue controlar seu carro.
23h48min40seg... Um marido dedicado, porém traído, é passível de cometer uma loucura. Com fúria no olhar, o caipira rústico e sujo, habitante da única casa da Estrada dos Elmos, agarra o lampião balançando-o com uma das mãos, as sombras dos poucos móveis dançam na parede. Ele gira o lampião e o joga furiosamente em direção a sua mulher. O vidro de querosene explode no peito da loira que voa pela janela envolta pelas chamas, caindo vertiginosamente.
23h48min12seg... O barbado Sem Nome esta desesperado para retomar a dianteira, mal percebe um furgão do IML vindo rapidamente em sua direção. Vindo ao seu encontro.
23h48min36seg... Zé Tracker segura o volante do Ford Tunderbird Stock. Slooby desmaiou devido à perda de sangue, Eddy Crok dá seu ultimo suspiro ainda com a arma em punho. As sirenes podem ser ouvidas ao longe. A velocidade continua e o cheiro de carne infesta o carro. Estão na metade do caminho entre Morsey e Montafa, para chegar à cidade segura, 23h48min38seg, passam por um Nissan coberto de poeira, Zé Tracker perdeu a concentração ao ver um sorriso e os olhos vermelhos de Dalman passarem como um raio. 23h48min39seg, um Opala frita os pneus numa arrancada mortífera. Zé Tracker percebe que entraram no meio de um racha. 23h48min40seg. Nesse exato momento, uma bola de fogo atinge feito um cometa o capô do Tunderbyrd vermelho que afunda contra o chão, erguendo a traseira que gira em L para o outro lado da pista. 23h48min42seg, o Sem Nome sente o calor das chamas se espalhando em farpas por cima do Opala, ele pragueja ao ver o Nissan vencedor e essa visão é tapada pelos dizeres I.M.L. que carimbam seu painel. Os dois carros rodopiam no ar com a violência do impacto.23h48min45seg Zé Tracker recolhe seus dentes espalhados em seu peito, seus movimentos são limitados para tirar suas pernas moídas pela ferragem, antes que todo seu corpo se junte ao fogo infernal. 23h48min49seg. O Sem Nome esta vivo, jogado na pista, sem poder ver pedaços de corpos caindo como chuva pela pista. Um cadáver remendado pela autópsia caindo em cima de Zé Tracker, na única fresta que restou na massa de ferro, é logo seguido pela caçamba do furgão que termina a mistura de sangue e ferro. O Sem Nome tem uma placa de vidro atravessada em seus olhos e por isso também não pôde ver o momento da explosão maior. Tanques cheios e prensados, para não resistir ao fogo. 23h48min55seg, Dalman Bean, esta tão sã como qualquer pessoa saudável, é sua vitória, sua glória infernal. Parado no acostamento, olhando para grande coluna de fogo e fumaça que se ergue no meio da Estrada dos Elmos, Dalman acende um cigarro e traga profundamente a fumaça. Camuflado pelo final do campo de centeio, ele esta salvo dos inúmeros carros de policia que agora chegam. 23h58min45seg. A grande casa queima, levando todas as provas do crime ali cometido, e no fogo a gordura de um assassino derrete em espasmos. Ferro espalhado pela pista, marcas de sangue que se arrastam por metros, fogo, fumaça, corpos e membros decepados por toda a parte. A morte impera absoluta, deixando por testemunha apenas um cego cambaleante, gemendo de dor, implorando por alivio. Dalman olha para o inferno pela ultima vez. Liga seu carro e segue o caminho sinuoso. 00h01min.