quinta-feira, 2 de outubro de 2008

FALTA UM INGREDIENTE




Falta um ingrediente


Sua mão perscrutada de veias sob a pele fina e enrugada, apóia a cabeça, deixando os cabelos sebosos e brancos caírem entre os dedos de unhas cumpridas, amarelas e trincadas. O fedor palpável incrusta no vidro das janelas, cerradas há um quarto de século. O único ruído é o do crepitar da madeira apodrecida esmorecendo no fogo que aquece o caldeirão enferrujado. A cada fio tecido vagarosamente de um lado a outro pela aranha, faz-se o tempo de cair um ou dois galhos pela chaminé, para rolarem direto as chamas. Os pés descalços na pedra áspera estão envoltos pelo musgo modorrento que avança já à flacidez da perna. Ratazanas de olhos inchados e vermelhos se contorcem na cama de palha e poeira, no entanto, não chamam atenção da velha mulher na cadeira de pano. A respiração fraca pulsa o tórax de ossos saltados, levando pelo ar uma colônia de ácaros que se destacam como fractais refletidos na baixa luz das labaredas. Os olhos amarelados e sem brilho, derretem viscosamente apontados para a borda descosturada do longo vestido negro. Nesta veste recai uma camada grossa de limo, onde baratas traçam contornos e se reproduzem.





“Toc Toc”
“Toc Toc Toc”
“Toc Toc Toc Toc TOC TOC”
“TOC BAMMMMMM”





A porta grossa de mogno vai ao chão. O rude empreiteiro, louro e comprido, espia o interior do pequeno chalé. A luz da floresta adentra vagarosamente o recinto, e os olhos do homem formigam para se acostumar ao negrume.





- Ah... Com licença...





O empreiteiro retira seu capacete de segurança ao notar o pequeno corpo diante do fogo.





- Com licença... Senhora? Bom dia. Desculpe pela porta. Não quis assustar.

O caldeirão borbulha freneticamente. Os ratos fogem assustados pela porta atravessada ao chão, assustando o homem. A velha mulher permanece no torpor rigido.

- Senhora, se não for incômodo, peço sua atenção. Sou da Construtora Prisma e vim lhe informar da construção de uma rodovia que irá dar acesso a cidade de Copera e Montafa neste exato trajeto e com certeza temos uma boa proposta. Afinal é a única casa em quilômetros de mata. Senhora? Esta tudo bem? Senhora?

O empreiteiro se aproxima da velha e sente seu corpo esfriar como se estivesse nu sobre o gelo. Na aba da sombra que se deita sobre o rosto da velha mulher, uma boca envolta por hachuras e pelos quebradiços se abre com um ranger contundente:

- Morto de desgosto. Morto. Foi o morto que lhe trouxe. Viajou de desgosto. Morto. Pois me falta um último ingrediente.

A rouquidão saltou da boca apodrecida relampejando por todo o pequeno recinto. O esguio empreiteiro perde o equilíbrio do corpo. Um medo repentino lhe assalta, aflorando uma repulsa extrema e irracional daquela coisa velha sentada disforme a sua frente. Sua perna trêmula retorna dois passos em direção a luz que preenche o limiar do vão onde ficava a porta. Com pouca flexibilidade, ele engancha o calcanhar na grossa madeira que havia derrubado e cai com um baque seco de costas.



- Morto, morto. Enfim o fim. Ceifou o corpo. Foi o morto que lhe trouxe.

A velha desgrudou a mão da face coagulada. Ergueu-se estralando todos os ossos e foi em direção ao empreiteiro. O musgo de seu pé marcava seus passos ecoando um barulho gelatinoso. Ajoelhou-se diante do empreiteiro e dobrou seu pequeno corpo por cima do tronco inerte. Roçou as unhas com força na camisa, estourando os botões que prendiam o tecido. Atordoado, ele ergue a cabeça e sangue começa a verter do nariz. Sua visão turva o faz estirar a nuca novamente ao chão em um torpor embriagante. A velha enlaça seus dedos finos e manchados de cinza no galho podre que rolou pelo chão.
Salivando uma baba amarelada e com odor de vinagre, ela tomba sua face ao peito do homem e afunda a ponta de farpas na barriga tenra daquele corpo. Ele entra em desespero quando sente sua carne formigar.

- Quarenta anos eu espero. Só falta um ingrediente.

Então ela abre todo o tronco do empreiteiro, rasgando sua pele com as mãos, espalhando o sangue escuro e encorpado por todo o piso. Com uma força demoníaca. Diante das veias, das tripas, ossos, músculos e órgãos, passa a revirar tudo com os dedos. Ele perde os sentidos.
As corujas anunciam sua presença com um pio incessante. O empreiteiro desperta ofegante no chalé. A noite vaza porta adentro. Ele desaba a chorar, dominado pelo medo e pela dor amortecida e tenaz que sobe em vagalhões por sua espinha. Ele se levanta de súbito, apoiando as mãos na parede de teias. Seu peito e sua barriga estão rudemente costurados por um pedaço longo de arame descascado. Ainda assim o sangue verte em fios desenhados por toda sua pele arranhada. A luz do fogo que esquenta o caldeirão traça os contornos da velha. Sentada na mesma posição de quando ele havia entrado pela manhã. Como uma estátua amaldiçoada. A mão apoiando a cabeça, o longo cabelo caído pelo corpo, o limo, o musgo, as baratas em sua rotina no velho vestido abarrotado, os olhos amarelados, a unha trincada, os pés descalços no chão de pedra. E entre os lábios o balbuciar fraco:

-... O morto não trouxe... O morto não trouxe... O morto não trouxe...

O empreiteiro corre como um ensandecido pela floresta, batendo dente com dente, com o pulmão ardendo e as veias do pescoço serpenteando sua pele. Sem olhar para trás, derruba lágrimas salgadas. Seja o próprio diabo que aquela aberração procurou em seu corpo, não encontrou nada senão sangue. E a velha bruxa retorna a sua espera imóvel e pungente, pois ainda lhe falta um último ingrediente.





Sérgio Ferrari







Arte de Dave McKean